Glória Maria foi a primeira repórter negra a se destacar na TV e a usar lei contra racismo

Apresentadora conquistou a cumplicidade do espectador por suas atitudes, como a de processar o gerente de um hotel que a impediu de entrar pela porta da frente
Por Ubiratan Brasil

Foto: WILTON JUNIOR

Glória Maria trocou um selinho com Mick Jagger, dançou com Roberto Carlos, foi acarinhada por Madonna – essas são as imagens marcantes da jornalista e apresentadora que morreu na manhã desta quinta-feira, 2, no Rio, aos 73 anos. Aliás, sua idade também alimentou muitas discussões, diante da sua má vontade em revelar o número exato.

Mas Glória Maria deixa como legado uma trajetória que se confunde com os últimos 50 anos da história da TV brasileira, tornando-a uma autêntica pioneira. Afinal, foi a primeira repórter a aparecer ao vivo no Jornal Nacional, em 1977, quando reportou a saída de carros do Rio de Janeiro, em um fim de semana. Cobriu ainda eventos históricos, como a posse do presidente americano Jimmy Carter (1977), a Guerra das Malvinas (1982) e a invasão da embaixada brasileira do Peru por um grupo terrorista (1996).

A jornalista e apresentadora Glória Maria participa do programa sobre os 70 anos da TV no Brasil , apresentadora do Globo Repórter
A jornalista e apresentadora Glória Maria participa do programa sobre os 70 anos da TV no Brasil , apresentadora do Globo Repórter Foto: Victor Pollak / TV Globo

Atuou também como repórter esportiva, durante a Olimpíada de Atlanta (1996) e a Copa do Mundo na França (1998). Ao tentar explicar tal versatilidade, Glória confessava agir por impulso. “Se eu parar pra pensar racionalmente, não faço nada”, justificava.

Essa disposição alimentada pela curiosidade e até pelo susto despertava uma rara cumplicidade com o espectador, que confiava fielmente em suas informações. Trata-se de uma química que não se explica e não se cria intencionalmente, mas que simplesmente acontece.

Glória foi ainda importante em assuntos decisivos como raça. Primeira repórter negra a se destacar na televisão brasileira, ela se orgulhava de ser uma das pioneiras a usar a Lei Afonso Arinos, de 1951, que incluía a discriminação racial entre as contravenções penais. Ela contou, em uma postagem no Instagram de 2019, que, ao ser impedida de entrar pela porta da frente de um hotel no Rio, em 1970, processou o gerente, que dizia que negro não poderia entrar por ali. Glória chamou a policia, o gerente foi processado e, por ser estrangeiro, acabou expulso do País. Ao relembrar a história, ela reafirmava sua importância na luta contra a discriminação.

Após 100 anos de branqueamento, o Brasil retratará a deusa Iemanjá como negra

BEATRIZ MIRANDA

FOTO: CORTESIA DE CRISTIAN CARVALHO.

Todo dia 2 de fevereiro, a cidade de Salvador no Brasil celebra Iemanjá , divindade do mar e da maternidade, que é a deusa iorubá mais venerada do país. Durante esta comemoração em 2016, enquanto centenas de milhares de devotos rezavam a este orixá em uma festividade de horas que acontece sempre na orla do bairro do Rio Vermelho, Cintia Maria, frequentadora assídua, sentiu-se profundamente incomodada.“O alto número de representações de Iemanjá de pele branca me chamou a atenção. Eu pensei, ‘como é que, no século 21, não aceitamos que uma divindade africana é negra’”, lembra Maria ao Refinery29 Somos.Neste dia 2 de fevereiro, Maria, produtora cultural, e sua companheira de trabalho Jamile Coelho, cineasta, esperam que o histórico embranquecimento de Iemanjá não passe mais despercebido. Ambas as mulheres negras dirigem o Museu da Cultura Afro-Brasileira de Salvador (MUNCAB), e com o ano de 2023 marcando o centenário do Dia de Iemanjá em Salvador, a MUNCAB produziu, pela primeira vez, uma escultura de Iemanjá negra, presenteada à colônia de pescadores do Rio Vermelho ( onde fica o altar de Iemanjá) para a festa. “

“Como é que, no século 21, não aceitamos que uma divindade africana é negra?”CINTIA MARIA”Feita de metal, mármore, resinas de vidro e conchas importadas da Indonésia, a escultura meio mulher, meio peixe resgata a Negritude de Iemanjá — uma deusa que, apesar de suas origens africanas, foi caiada ao longo da história brasileira. Em Salvador, os brasileiros começaram a comemorar o Dia de Iemanjá em 1923, quando pescadores desta cidade nordestina, considerada a mais negra fora da África, começaram a oferecer presentes à deusa do mar para exigir abundância de peixes. A festividade ganhou popularidade nas décadas seguintes, especialmente entre 1930 e 1950.

Lemanjá
FOTO: CORTESIA DE CRISTIAN CARVALHO.

“O aumento do interesse de pesquisadores estrangeiros, [como o fotógrafo francês Pierre Verger e a antropóloga americana Ruth Landes], e de artistas brasileiros, [como o músico Dorival Caymmi e o romancista Jorge Amado], pela cultura afro-baiana, e a consequente mudança na [racista] da mídia local, ajudou a tornar a festa de Iemanjá um evento turístico atraente”, diz Sarah Nascimento, Ph.D., professora de antropologia que se concentra em relações raciais brasileiras na Universidade Federal da Bahia.Embora a divindade seja celebrada em todo o país, a festa de Iemanjá de Salvador continua sendo a mais famosa, com até um milhão de pessoas participando todos os anos.“

“É a mãe que luta pelos filhos, a mãe que sustenta e alimenta o mundo onde quer que esteja, seja qual for a sua forma e imagem.”VILSON CAETANO”De acordo com Vilson Caetano, um antropólogo que foi trazido para o projeto para compartilhar sua visão especializada para a produção da escultura, existem muitas razões pelas quais Iemanjá não é apenas o orixá mais popular no Brasil, mas em todas as Américas, onde ela é chamada de Yemayá em países de língua espanhola como Cuba, Porto Rico e República Dominicana.Além de ser uma orixá cuja seita, originária do Império Yoruba de Oyo na Nigéria , chegou às Américas no século XVI devido ao fluxo transatlântico da escravidão, Iemanjá representa “a mãe de todos”. “É a mãe que luta pelos filhos, a mãe que sustenta e alimenta o mundo onde quer que esteja, seja qual for a sua forma e imagem”, diz Caetano ao Somos.

Lemanjá
FOTO: CORTESIA DE CRISTIAN CARVALHO.

Com o domínio histórico do catolicismo na sociedade brasileira colonizada pelos portugueses, os africanos escravizados e seus descendentes passaram a associar Iemanjá às aparições da Virgem Maria. “Foi uma estratégia de resistência das populações negras escravizadas para preservar suas tradições”, diz Maria, presidente da MUNCAB.Mas a perseguição sancionada pelo Estado às religiões afro-diaspóricas não terminou com a escravidão. Nascimento observa que “só a partir da década de 1970 é que os terreiros de candomblé não precisam mais de autorização policial para realizar atividades religiosas”. Ainda assim, persiste o embranquecimento dos orixás negros: santos de aparência européia, como Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Luz, muitas vezes são entendidos como “sinônimos” de Iemanjá, e suas imagens prevalecem sobre a representação de Iemanjá negra. “

“Quando as pessoas começarem a aceitar que uma deusa africana é negra, teremos dado um grande passo em direção à igualdade racial.”CINTIA MARIA”Embora o sincretismo religioso tenha desempenhado um papel quando as divindades africanas foram perseguidas e criminalizadas pelo Estado, Maria acredita que a continuação do sincretismo nos dias atuais está prestando um péssimo serviço aos negros brasileiros e ao movimento antirracista do país . Por exemplo, de todas as imagens de Iemanjá que os devotos levam para a festa de 2 de fevereiro no Rio Vermelho, a grande maioria imita Nossa Senhora dos Navegantes. “Quem se beneficia da massificação de uma representação de Iemanjá branca e de cabelos lisos”, questiona Maria.

Lemanjá
FOTO: CORTESIA DE CRISTIAN CARVALHO.

Por isso ela e Coelho trabalharam para produzir a escultura Iemanjá Negra para a comemoração do centenário. Na contagem regressiva para o 100º Dia de Iemanjá em Salvador, Rodrigo Siqueira, artista plástico que realizou a escultura, destaca a importância simbólica da iniciativa da MUNCAB.“Poder contar com referências negras nos espaços públicos de Salvador proporciona representatividade, tanto para os moradores quanto para os turistas, que buscam vivenciar a real história deste lugar. Também eleva os negros e negras devotos de Iemanjá”, conta Siqueira ao Somos.Para Maria, a festa de Iemanjá simboliza a celebração da resistência da cultura negra. A nova escultura, da mesma forma, representa a afirmação da identidade negra de Iemanjá.“O fato de Iemanjá ser negra deveria ser redundante. Mas a crueldade do racismo faz com que as pessoas o questionem”, diz ela. “Quando as pessoas começarem a aceitar que uma deusa africana é negra, teremos dado um grande passo em direção à igualdade racial.”

Morre Glória Maria, um ícone do jornalismo e uma pioneira na TV brasileira

Retrato de Glória Maria Léo Aversa/Agência O Globo

SÃO PAULO – Morreu na manhã desta quinta-feira, aos 73 anos, a jornalista Glória Maria, vítima de um câncer. A informação foi confirmada pela TV Globo em nota enviada à imprensa. Segundo a emissora, o tratamento que Glória fazia para combater as metástases que existiam em seu cérebro deixaram de fazer efeito nos últimos dias.

Em 2019, ela descobriu um tumor no cérebro, tendo enfrentado o problema com cirurgia e imunoterapia. Em dezembro passado, a Globo informou que ela estava afastada da TV para tratar da saúde, mas acrescentou que isso já era previsto como parte do tratamento contra o tumor cerebral.

A idade a ela atribuída era de 73 anos, mas Glória nunca confirmou. Em entrevista a Mano Brown no podcast “Mano a Mano”, ela disse que gostava de driblar a curiosidade das pessoas sobre o assunto. “Não tem dados para provar, e eu invento. Lá atrás ninguém vai conseguir bater ‘lé’ com ‘cré’ porque eu confundi tanto que ninguém vai conseguir fazer a conta. E não é para esconder. É questão de cultura familiar.”

Primeira pessoa negra a conquistar espaço diante das câmeras no telejornalismo brasileiro, Glória foi pioneira como mulher na cobertura de guerra e rompeu a hegemonia branca também na apresentação de programas na principal emissora de TV do país, tendo sido a primeira profissional a entrar ao vivo no Jornal Nacional em cores, em 1977.

Seu legado está no espelho que construiu para tantas negras de várias gerações, que viam nela uma referência e esperança de estarem na TV. A jornalista nunca trabalhou para outra empresa que não fosse a Globo, onde ingressou ainda em 1970, como estagiária, tendo apresentado sua primeira reportagem em 1971, sobre a queda do viaduto Paulo Frontim, no Rio de Janeiro.

Mas, naquele início, o repórter não aparecia no vídeo, e os telespectadores podiam apenas ter como pista uma mão de outra cor a segurar o microfone. Quando enfim pôde mostrar o rosto na tela, o público já havia se habituado à sua voz.

Glória comandou o Fantástico entre 1998 e 2007, e mais tarde, o Globo Repórter. Antes disso, foi âncora do RJ TV, do Bom Dia Rio e do Jornal Hoje.

Como repórter, viajou por mais de cem países. Cobriu a posse do presidente Jimmy Carter em Washington, em 1977, e a Guerra das Malvinas, em 1982, de tanto cobrar o então chefe, Armando Nogueira. Não se conformava com o fato de que só seus colegas homens eram escalados para situações de conflito. Reportou também a invasão da embaixada no Peru por um grupo de terroristas, os Jogos Olímpicos de Atlanta e a Copa do Mundo na França em 1998.

Entrevistou celebridades como Michael Jackson, Mick Jagger, Madonna, Elton John, Freddie Mercury, Julio Iglesias, Roberto Carlos, Leonado DiCaprio, Harrison Ford e Nicole Kidman, além de ter viajado com Paulo Coelho pela ferrovia transiberiana até Moscou.

Retrato de Glória Maria em 1980
Retrato de Glória Maria em 1980 – Otávio Magalhães/Agência O Globo

Nascida em Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, Glória Maria Matta da Silva era filha do alfaiate Cosme Braga da Silva e da dona de casa Edna Alves Matta. Ela se formou em jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e entrou na TV Globo como estagiária de rádio-escuta, alguém que ficava garimpando informações dadas por outras emissoras de rádio e TV.

Em nota, a Globo lamentou a morte. “Glória marcou a sua carreira como uma das mais talentosas profissionais do jornalismo brasileiro, deixando um legado de realizações, exemplos e pioneirismos para a Globo e seus profissionais.”

Num tempo em que o jornalismo cobrava envolvimento zero do repórter com seu entrevistado, Glória já tinha a exata dimensão do efeito que a TV provoca nas emoções do telespectador. Muito antes de os influenciadores digitais afetarem a linguagem e os critérios do jornalismo, ela já sabia qual era o impacto de se pôr no lugar do público.

Por isso, ao apresentar a nova Ferrari de Ronaldo Fenômeno, em reportagem para o Fantástico, não fingia que aquela era uma situação normal. Exibia, sem pudor, o deslumbramento que qualquer um teria ao entrar no carro com o notório craque para dar uma volta pelas largas avenidas da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Tampouco fazia questão de disfarçar o orgulho de ser enlaçada pelos braços de Julio Iglesias para um breve passo de dança e se gabava de contar que o cantor a mandou buscar no Rio com seu jatinho, em duas ocasiões, para que ela o entrevistasse. Nem se acanhava em mostrar comoção de atender ao pedido de Roberto Carlos por um beijo. “Isso só eu tenho”, disse, ao oferecer o rosto ao Rei.

Situações como essa faziam com que Glória viralizasse muito antes que esse termo existisse. Em 2016, ela viralizou de fato, quando fumou maconha diante das câmeras, em reportagem para mostrar o ritual de fumar “a ganja” na Jamaica. “Eu não sabia o que era. O rei lá do negócio queria que eu caísse, mas não caí. Puxei duas vezes e não caí”, disse no Roda Viva, em março do ano passado.

PRECONCEITO

Fundador da Globo, Roberto Marinho tinha grande apreço por Glória Maria, que namorou seu filho caçula, José Roberto Marinho, com quem ela morou, ainda jovem. O jornalista Leonêncio Nossa relata, na biografia “Roberto Marinho – O Poder Está no Ar”, o preconceito que ela enfrentou ao entrar com ele no Country Club, no Rio de Janeiro, ambiente da alta sociedade carioca.

“Papai foi tranquilo. Gostava dela, tinha admiração por ela. Mas eu senti o preconceito no Rio quando estava na companhia dela em lugares públicos”, disse José Roberto ao biógrafo. “Aqui, as classes sociais são apartadas.”

Em entrevista a Pedro Bial, em maio de 2020, Glória confirmou o episódio no Country Club. “Era o clube inteiro olhando para aquela mesa, eu não sabia o que fazer. Eu não sabia se era só porque eu era negra ou se era também porque ele era o filho do Roberto Marinho, mas foi um dos momentos assim mais ruins, mais desagradáveis da minha vida. Eu me sentia como um macaco no zoológico, todo mundo ali, esperando a hora de dar uma banana.”

Nessa mesma entrevista a Bial, a jornalista contou que era desprezada pelo então presidente João Figueiredo, que a chamava de “negrinha”. “O general Figueiredo não me suportava. Quando ele foi indicado, a gente foi fazer a famosa fala dele na Vila Militar, em que ele dizia ‘para defender a democracia, eu bato, prendo e arrebento’.”

Contou então que cometeu a ousadia de corrigir Figueiredo sobre um erro gramatical e ele nunca mais a perdoou por isso. “Passei todo o governo Figueiredo ouvindo ele dizer ‘tira essa neguinha da Globo daqui!’.”

Gloria Maria e as filhas Laura, 8, e Maria, 9,
Gloria Maria e as filhas Laura, 8, e Maria, 9, Reprodução/Instagram/Gloria

Glória teve seus romances e casamentos, mas nunca havia sido mãe até 2009, quando resolveu adotar Laura e Maria, hoje adolescentes, ao visitar a Organização de Auxílio Fraterno em Salvador. Às duas filhas vinha ensinando a arte de “se blindar do racismo”.

“Nada blinda preto de racismo. Você tem que aprender a se blindar da dor. Mulher preta é pior ainda, nós somos mais abandonadas e discriminadas, porque o homem preto não quer a mulher preta”, disse ela no Roda Viva, em março do ano passado.

“Hoje nada me faz sofrer porque eu aprendi a me blindar e estou ensinando as minhas filhas a terem as mesmas coisas”, acrescentou, contando que ambas já haviam sofrido situações de racismo.

No mesmo programa, disse que não tinha medo da morte e se recusava a viver de acordo com a opinião alheia. “Visto um biquíni ‘petitico’, desse tamanhinho”, mostrou. “E cada vez vou diminuindo mais.”

“Eu não me preocupo nem um pouco com como eu devo me vestir, como eu devo me comportar. Quem tem que estar bem comigo sou eu, a vida é minha, ninguém paga as minhas contas, ninguém cuida dos meus problemas. Eu quero estar bem comigo porque eu vou morrer, ninguém vai morrer por mim, quem vai me julgar hoje não vai deitar no caixão no meu lugar.”

Advogadas queimam sutiã em protesto contra Secretaria de Administração Penitenciária de SP

Profissionais dizem que, em unidades sem scanner, estaria sendo exigido que elas tirassem a peça de roupa para entrar
Paulo Eduardo Dias

Advogadas queimam sutiãs na porta da SAP
Advogadas queimam sutiãs na porta da SAP na zona norte de São Paulo – Divulgação

SÃO PAULO – Um grupo de advogadas queimou sutiãs no portão de entrada da SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), na zona norte de São Paulo, na manhã desta sexta-feira (27). O ato ocorreu em desagravo a violações durante ingresso das profissionais em unidades prisionais.

Conforme a advogada criminalista Karina Carmo, responsáveis por unidades prisionais com scanner quebrado têm obrigado as advogadas a tirarem a peça de roupa para ingressar no sistema. Um dos casos ocorreu no dia 20 deste mês, no Centro de Ressocialização de Rio Claro, no interior de São Paulo.

“Queimamos sutiãs em prol de que sejamos respeitadas no exercício da nossa profissão. Algumas advogadas estão sendo coagidas a tirar o sutiã para poder atender um detento, atender a um cliente dentro do sistema carcerário”, disse Karina.

Outra queixa das advogadas é de, na ausência de funcionárias do sexo feminino, homens estão operando scanner corporais, o que causa constrangimento, já que é possível notar se a profissional possui silicone, piercing, ou está usando absorvente, explicou Karina.

“Nós protocolamos formalmente um requerimento a fim de que o secretário apure essas ilegalidades que estão ocorrendo por ordem dos diretores prisionais”, acrescentou a advogada.

Em nota, a Secretaria da Administração Penitenciária disse que foi protocolada uma solicitação da OAB em relação às visitas de advogadas em unidades prisionais. A solicitação está sendo analisada para que sejam tomadas as medidas mais adequadas para evitar constrangimentos.

Conforme a pasta, a comissão foi recebida pessoalmente pelo secretário coronel Marcello Streifinger, na quinta-feira (26).

Maioria das pessoas trans que retificam gênero antes dos 18 anos não volta atrás

Estudo feito na Holanda aponta que uso de hormônios prosseguiu na maioridade; processo demanda acompanhamento, diz especialista
Bruno Lucca

Thamyris e Agatha Nunes, uma menina trans de 7 anos e meio – Guilherme Pupo/Folhapress

SÃO PAULO – “Se eu morrer, posso voltar como uma menina?”, perguntou Agatha, aos três anos e meio, segundo relata a mãe, Thamirys Nunes.

Uma menina trans, Agatha tem hoje sete anos. A questão, que ainda deixa Thamirys inquieta ao recordar, foi o ponto de partida da retificação de gênero da garota, que, segundo a mãe, ficou mais feliz e confiante desde então, sem manifestar dúvidas sobre a sua nova identidade.

Agatha pode não ser exceção. Estudo feito por uma clínica referência em identidade de gênero na Holanda mostra que 98% das pessoas que iniciaram a retificação de gênero antes dos 18 anos mantêm o tratamento hormonal na maioridade —o que sugere que não se arrependeram da decisão.

Os resultados foram publicados, em outubro do ano passado, na revista médica The Lancet Child & Adolescent Health.

Thamyris e Agatha Nunes, uma menina trans de 7 anos e meio – Guilherme Pupo/Folhapress
Participaram indivíduos que fizeram supressão da puberdade, tratamento inicial para transgêneros que impede o desenvolvimento de características biológicas adultas, antes de utilizar hormônios de afirmação de gênero, método só permitido a partir dos 16 anos, mas que costuma ter início aos 18.

Entre os 720 participantes, inicialmente 220 (31%) foram designados do sexo masculino ao nascer e 500 (69%), do sexo feminino. A idade média para o início da supressão da puberdade para os participantes biologicamente masculinos foi de 14 anos; para femininos, de 16 anos.

Setecentos e quatro indivíduos (98%) continuaram usando hormônios de afirmação de gênero após a terapia inicial e prosseguiram na maioridade.

Para chegar aos resultados, o estudo vinculou seus dados, coletados em 2018, ao registro nacional de prescrição hormonal da Holanda. Assim, foram mapeados os jovens ainda recebendo injeção hormonal naquele ano.

Sobre os 2% que não usam mais hormônios de afirmação de gênero, os cientistas dizem não saber se eles pararam o tratamento porque se arrependeram da transição. Novos estudos sobre o tema estão previstos.

Karen de Marca, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, avalia que o resultado do estudo condiz com avaliações clínicas de todo o mundo sobre atendimento à população trans. “Se a pessoa inicia seu tratamento de adequação sexual ainda na menoridade, observamos serem maiores as chances de autossatisfação e uma vida plenamente feliz.”

Segundo ela, o acompanhamento do processo é muito importante. “Quando a criança primeiro manifesta a sua incongruência de gênero, já é acionada uma equipe multidisciplinar para atendê-la. São psicólogos e médicos de diversas especialidades”, diz a especialista.

A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta a seus profissionais que, percebendo manifestação de inconformidade de gênero da criança ou adolescente, se faça uma observação criteriosa antes de encaminhar o paciente uma junta médica responsável pelo tema.

A retificação de Agatha também mudou a rotina de sua mãe. Thamirys, além de acompanhar a filha em todos os seus passos, passou a se dedicar ao movimento trans e, principalmente, a dar visibilidade às crianças inseridas nele.

De Curitiba, a história da família ganhou o país a partir do perfil do Instagram Minha Criança Trans, criado para compartilhar o crescimento e as vivências da menina.

Hoje, a página tem pouco mais de 96 mil seguidores. Em 2020, o projeto virou um livro e, em novembro, uma ONG. Minha Criança Trans é primeira organização brasileira a tratar especificamente dos direitos, inclusão e qualidade de vida de crianças e adolescentes trans.

“Falar da Agatha é falar sobre liberdade. Não esquecendo as dificuldades, claro, mas eu quero focar a felicidade da minha filha”, diz Thamirys.

Thamirys diz ser a ONG a realização de um sonho. Ela relata ter preocupação com o futuro de crianças trans, especialmente de sua filha, e diz que fará tudo ao seu alcance para a proteção delas.

Thamirys conta com uma rede de apoio com mães de crianças e jovens trans de todo o país, como a funcionária pública carioca Isabel de Lima, 48.

Ela conheceu Thamirys durante o processo de retificação da filha, Estela, de 16 anos.

Durante a infância de Estela, Isabel notava que a menina fugia dos estereótipos de gênero, mas não sabia como denominar aquilo. Ao assistir a uma reportagem sobre crianças transexuais, ela percebeu que poderia ser o caso da filha.

Então, a menina, aos quatro anos, foi levada a uma psicóloga. A profissional, nas palavras de Isabel “muito despreparada”, negou as suspeitas da mãe. Segundo a terapeuta, Estela era feminina por conviver muito com a mãe.

Isabel não aceitou a explicação, porém julgou melhor esperar pelo momento em que a filha se assumiria. O processo foi longo.

Primeiro, Estela se identificou como homem gay. Anos depois, a garota se disse pessoa não binária, passou por gênero fluído —que não se identifica com um único papel de gênero— e terminou, em 2021, por se reconhecer como transexual.

Isabel demorou a entender a mudança. Não por preconceito, diz, e sim por desconhecimento. A primeira coisa que fez foi ganhar tempo para entender tudo.

O primeiro passo foi trocar o nome da filha em sua agenda de contatos para sempre se lembrar de usá-lo. “O nome é a coisa mais importante para uma pessoa”, afirma.

Em seguida, ligou para a escola. Queria que a instituição fizesse o mesmo.

O tratamento hormonal para afirmação de gênero foi o passo seguinte. Por um curto período, Estela fez a supressão da puberdade antes de iniciar com a injeção de hormônios femininos. Isabel nunca deixou de acompanhá-la.

“Hoje, Estela se diz feliz. Feliz e completa. Mas isso não afasta o medo que sinto. É o medo de toda mãe. O país é cruel para pessoas como ela”, diz.

Sou escritora negra, mas minha obra é universal, diz autora Ana Maria Gonçalves de ‘Um Defeito de Cor’

Para Ana Maria Gonçalves, que lança nova edição do livro, classificar obra como literatura negra diminui a sua importância
Dani Avelar
Matheus Rocha

mulher negra de vestido preto sentada, com os braços cruzados na perna
A escritora Ana Maria Gonçalves, que publica uma nova edição de luxo de “Um Defeito de Cor” pela Record – Léo Pinheiro/Divulgação

SÃO PAULO – Aos 29 anos, a autora Ana Maria Gonçalves decidiu escrever o próprio obituário e não gostou do que leu. Estava infeliz com a rotina em São Paulo e insatisfeita com a carreira de publicitária. “Não era aquilo que eu queria deixar para a vida. Então decidi procurar o que fazer.”

Encontrou uma dica em “Bahia de Todos os Santos”, de Jorge Amado. No prefácio do livro, o escritor faz um convite: “Atende ao chamado e vem. A Bahia te espera para sua festa cotidiana.” Gonçalves largou o emprego e se mudou para lá, onde escreveu “Um Defeito de Cor”. “O encontro com o livro não foi coincidência, foi Exu”, diz a autora, que não costuma dar entrevistas.

Lançado em 2006, o romance se tornou um marco incontornável da literatura contemporânea por retratar os males da escravidão e dar protagonismo a uma mulher negra. A obra é vencedora do Prêmio Casa de Las Américas e está em sétimo lugar na lista de livros mais importantes para entender o Brasil do projeto “200 anos, 200 livros”, da Folha.

“Um Defeito de Cor” ganha agora nova edição de luxo pela Record, com ilustrações da artista plástica Rosana Paulino e um conto inédito da autora.

Ao longo de 986 páginas, o livro conta a história de Kehinde, sequestrada do reino de Daomé —atual Benin— aos oito anos para ser escravizada no Brasil durante o século 19. Ela conquista a própria liberdade, mas vê um de seus filhos ser vendido como escravizado pelo próprio pai e acaba retornando à África.

‘Ainda a Lamentar’, obra de Rosana Paulino que ilustra a nova edição de ‘Um Defeito de Cor’, publicada pela Record Rosana Paulino/Divulgação

A trajetória da protagonista é inspirada em Luiza Mahin, mãe do poeta e jurista Luiz Gama e tida como uma das líderes da Revolta dos Malês, levante de escravizados ocorrido em Salvador, em 1835.

Gonçalves conta que o processo de escrita do livro a ajudou a se entender enquanto mulher preta. Por outro lado, a autora diz que sua obra não pode ser rotulada como literatura negra.

“Durante muito tempo, os rótulos de literatura negra e marginal foram usados para dizer de maneira implícita que esses livros não tinham qualidade para serem alçados à categoria de Literatura”, diz ela. “Sou uma escritora negra, mas minha obra é universal.”

A Kehinde é uma personagem contraditória. No Brasil, ela se apega às suas raízes africanas. Porém, quando retorna à África, chama os africanos de selvagens. Por que a senhora construiu uma heroína falha? A Kehinde foi escravizada aos oito anos de idade. Ela tinha uma vida em família e, de repente, tudo isso foi tirado dela. A partir de então, ela faz um pacto de sobrevivência. Ela vai fazer de tudo para ter a melhor vida possível e para proporcionar uma existência digna para os seus filhos e netos. Ela vive tudo o que tinha que viver, com acertos e erros.

Eu reivindico um “lugar de falha” para os meus personagens negros. No Brasil, quem é preto, pobre, mulher ou LGBTQIA+ não tem direito de errar nunca, enquanto o homem branco pode falhar sem que isso signifique perder emprego, amigos ou ser cancelado.

Grande parte dos personagens negros da ficção mainstream brasileira é completamente previsível. Os personagens tortos e falhos me interessam mais. Eles têm mais a dizer do que personagens que estão sempre tentando andar na linha.

A sinhá Ana Felipa é uma personagem que comete atos brutais, mas é capaz de amar o filho da mulher que ela escraviza. Por que a senhora humanizou essa antagonista? Eu queria personagens que se aproximassem da gente e com os quais o leitor pudesse se identificar. Ninguém é mau ou bom. Esse modo de retratar racistas e escravocratas na ficção mainstream causa um grande dano para a conversa sobre o que é racismo, porque as pessoas aprendem que racismo é sobre crueldade.

Só que a maior parte dos atos racistas acontecem por meio de pequenas ações no dia a dia. É a pessoa que puxa a bolsa para mais perto quando enxerga um rapaz negro. É o vigia da loja que segue a pessoa negra assim que ela entra.

Reduzir o racismo à crueldade faz com que a gente não consiga punir atos racistas, porque as pessoas falam: “Nossa! Mas é uma senhora tão boazinha. Ela não pode ser racista.” Numa sociedade racista como a nossa, não acredito em quem fala que não é racista. Racismo é algo que está em todos nós, seja de maneira ativa, seja de maneira introjetada.

A gente precisa parar de classificar como monstro pessoas que cometem não só racismo, mas outros atos de opressão. Não foi um monstro que cometeu aquela violência. Foi um ser humano. Racistas são pais, avós e tios. São pessoas que podem ser completamente boas e instruídas, mas ainda assim serem racistas.

Ativistas dizem que expor de modo excessivo a violência contra negros pode banalizá-la. No livro, há passagens que descrevem de maneira explícita a tortura de escravizados. Quando é que retratar o sofrimento deixa de ser denúncia e passa a ser banalização? Depende muito do contexto em que a violência é retratada e de quem vai fazer isso. Eu já vi obras de artistas brancos achando que estão fazendo denúncia e acabam retratando pessoas negras em situações de tortura ou de humilhação, como se fossem objetos de voyeurismo. Nesses casos, há uma fetichização do corpo negro, algo que você dificilmente vai ver um artista negro fazendo.

Mas, no livro, não tinha como deixar de falar da violência. Primeiro, porque a obra se passa em um contexto de escravidão. Segundo, porque no Brasil defendeu-se durante muito tempo a ideia de que a escravidão foi mais branda aqui porque os portugueses eram bonzinhos com os escravizados.

Literatura negra e marginal são dois rótulos criados para categorizar obras escritas por pessoas negras ou faveladas. De que modo a senhora enxerga essas categorias? Eu me apresento como uma escritora negra, porque isso é muito importante politicamente, mas a literatura que eu faço é universal. Ser uma mulher negra informa o lugar de onde eu escrevo e os interesses que me atravessam.

Mas eu brigo para que a minha obra seja vista como literatura, sem estar em uma caixinha. Caso contrário, vão achar que o que eu faço é exótico ou panfletário e que eu só devo ser lida por negros.

Veja o tratamento que tem sido dado a Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus, duas escritoras contemporâneas. Como mulher branca, o que a Clarice escreveu é visto como literatura universal, que fala sobre as experiências de todo mundo, enquanto a obra de Carolina é vista como literatura de mulher preta favelada.

Durante muito tempo, os rótulos de literatura negra e marginal foram usados para dizer de maneira implícita que esses livros não tinham qualidade para serem alçados à categoria de literatura, como se fossem obras militantes. “Um Defeito de Cor” não é a história dos negros escravizados. É a história do Brasil.

“Um Defeito de Cor” é um dos grandes romances históricos da literatura brasileira. Como foi o processo de pesquisa e quais desafios a senhora encontrou para narrar a vida da Luiza Mahin? Eu me mudei para Salvador decidida a escrever um livro sobre a Rebelião Malê. Na minha pesquisa, descobri a Luiza Mahin, que virou a protagonista do livro, enquanto a rebelião virou somente um capítulo da história.

Não existe registro oficial da vida dela. O que há são alguns escritos do Luiz Gama, nos quais ele conta que a mãe dele era do povo mahi, o que dá pistas sobre a região de origem dela. Ele também a descreve como uma mulher muito altiva, com muita iniciativa, baixinha. Foi a partir dessas dicas que surgiu a Kehinde, essa personagem que eu inventei para contar o que poderia ter sido a vida da Luiza Mahin.

Para construir a trajetória dela, eu pesquisei a história de mulheres escravizadas que viveram na mesma época que ela. Consultei recortes de jornal, cartas-testamento, cartas de alforria. Foi, portanto, uma construção por aproximação, por verossimilhança.

Dos cinco anos aos quais eu me dediquei ao “Um Defeito de Cor”, dois anos foram só de pesquisa. A escrita em si demorou um ano, esse processo de tirar a história de dentro da minha cabeça é rápido, quase braçal. Depois foram mais dois anos de reescrita, que é o que eu amo fazer de verdade, burilar o texto, brigar com as palavras.

Qual é a importância da Revolta dos Malês e de que modo esse acontecimento continua inspirando os movimentos negros contemporâneos? Foi a primeira grande tentativa de rebelião urbana no Brasil. Foi um movimento inspirado pela Revolução Haitiana. A ideia ali era separar a Bahia do Brasil e formar o que os historiadores depois chamaram de califado baiano, isto é, um governo de negros. O plano era expulsar ou matar os brancos, que ficaram preocupados com o que poderia acontecer com eles se aquela rebelião tivesse dado certo.

Isso mudou o rumo da escravidão no Brasil. A partir dali, percebeu-se que seria necessário arrumar um outro sistema, porque aquele não iria se sustentar por muito mais tempo.

Essas revoltas escravas deixaram um aprendizado para os movimentos negros, que é a necessidade de se encontrar e discutir entre a gente assuntos que a sociedade nunca quis discutir em público. Para nós, não é uma opção deixar de falar de racismo e de violência policial. São assuntos que a gente já discutia desde antes da abolição da escravatura, só que não chegavam no ouvido dos brancos.

No livro, a Kehinde enfrenta obstáculos que a transformam. Por outro lado, de que modo a criação dessa personagem transformou a senhora? Eu tenho uma identidade mestiça como boa parte da população brasileira. Minha mãe é negra e meu pai é branco. Eu não me lembro de a gente falar de raça na minha família.

Essa identidade mestiça é muito negociável. Por muito tempo, quando eu falava que era negra, as pessoas falavam: “Você não precisa falar isso. Você é clarinha.” Decidi que precisava conhecer melhor a minha história. “Um Defeito de Cor” era um livro que eu queria ter lido e não encontrei.

Os cinco anos em que eu convivi com a Kehinde foram um período de muito crescimento, no qual eu me entendi como mulher preta. Houve uma maturação da negritude em mim.

Retratos de Marten Soolmans e Oopjen Coppit, casal de escravocratas que enriqueceram com o açúcar brasileiro, pintados por Rembrandt, em exposição 'Escravatura', no Rijksmuseum em Amsterdã
Retratos de Marten Soolmans e Oopjen Coppit, casal de escravocratas que enriqueceram com o açúcar brasileiro, pintados por Rembrandt, em exp Rijksmuseum/Divulgação

Por que a senhora não escreveu nenhum livro desde “Um Defeito de Cor”? Na época, diziam que ninguém iria ler um livro com mais de 350 páginas. Eu achava que ninguém ia publicar e que ninguém ia ler, mas era um livro que eu precisava escrever. Para minha surpresa, acabou vendendo muito. Chegou rápido dentro das universidades. Em pouco tempo, já tinha gente fazendo tese de doutorado sobre o livro.

Essa recepção me assustou. Houve um bloqueio. Comecei uns 30 livros sobre temas diversos, mas nada que passasse pelo crivo do “Defeito de Cor”. Hoje, eu entendo. Abriu um portal, eu entrei, escrevi e saí. A porta não abre mais. Tenho que bater em outras portas. Por isso, fui estudar e escrever para cinema, teatro, ópera e TV.

Eu tenho um livro finalizado que está descansando na gaveta. Estou esperando a hora de reescrever. É uma história de ficção científica que se passa em São Paulo em 2064, sobre um garoto de 13 anos. Vai do passado para o futuro. Acho que o conto inédito que aparece no final da nova edição do “Defeito de Cor” dá uma ideia sobre aonde minha cabeça está indo.

O presidente Lula recomendou algumas vezes a leitura de “Um Defeito de Cor”, obra que ele leu quando estava preso. Que marca você espera que seu livro tenha deixado no presidente? Depois que ele leu, recebi um bilhete por meio do Instituto Lula dizendo que o livro o tinha ajudado a entender as relações raciais e a escravidão no Brasil de uma outra maneira. Olhando para esse ministério que foi montado agora, a gente sente uma pontinha de esperança de que haja alguma transformação.

Eu não quero representatividade. Eu quero presença. Tem que ter presença de pretos, mulheres, indígenas e pessoas LGBTQIA+. Mas é importante que essas pessoas tenham poder de agir, porque só falar não adianta.

Não estou dizendo que foi só o meu livro que ajudou o Lula a entender a importância de ter um governo inclusivo. Mas, se o “Defeito de Cor” tocou o presidente de alguma forma, isso é um presente para todo artista.

RAIO X | Ana Maria Gonçalves, 52

Nascida em Ibiá, em Minas Gerais, formou-se em publicidade, área na qual atuou antes de se dedicar à literatura. Escreveu os romances “Ao Lado e à Margem do que Sentes por Mim”, de 2002, e “Um Defeito de Cor”, de 2006. Vencedora do Prêmio Casa de las Américas, foi escritora residente nas universidades Tulane e Stanford, nos EUA.

É preciso ter o talento de Shakira para ganhar dinheiro com fim do casamento

Mas há produtos financeiros que ajudam a criar uma rede de proteção
MARA LUQUET

As mulheres não choram mais, as mulheres faturam”, diz um verso da canção de Shakira

“Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci”

Os versos da canção de Chico Buarque fizeram sucesso na voz de Maria Bethânia nos anos 1970 quando eu ainda era uma criança.

Tocavam fundo, principalmente, o coração das mulheres.

Era a música preferida da minha mãe que acabara de se separar do meu pai.

Ainda não existia o divórcio. O desquite era motivo de preconceito, ainda mais com três filhos pequenos, como no seu caso.

Assim se deu com milhares de mulheres em situação semelhante. Muitas reconstruíram suas vidas, talvez, ao lado de um novo amor.

Foi um sucesso retumbante. Chico e Bethânia devem ter faturado muitos cruzeiros, a moeda da época. Mas, nada perto do que Shakira deve estar ganhando com seu novo single, cujo videoclipe já superou a marca de 100 milhões de views no Youtube e que também se encontra no topo do ranking de reproduções do Spotify, só para citar dois exemplos.

Em Bzrp Music Sessions #53, Shakira conta detalhes da traição que sofreu e que acabou com seu casamento de 11 anos.

Mas, não se trata de uma canção de lamento ou de “fossa” como diria minha mãe. O sentimento que carrega é de vingança. Com muito ritmo, Shakira fala do ex-marido, da sogra e, lógico, da amante do marido. “As mulheres não choram mais, as mulheres faturam”, diz um verso da canção.

Quanto custa um divórcio?

No entanto, para nós mortais, sem tantos fãs, o caminho financeiro, após uma separação, pode ser complexo, cheio de desafios.

Este tema é objeto de estudos e análises por ser mais relevante que a “simples” história de amor traído. Para mulheres, então, pode ganhar contornos fundamentais.

Vou lembrar aqui um caso real: uma advogada que se separou aos 44 anos, com dois filhos já formados. Assim como Shakira, o marido pediu o divórcio para se casar com uma moça bem mais nova.

O argumento usado pelo ex-marido para não pagar a pensão alimentícia era de que a mulher era uma advogada e poderia trabalhar.

Quanto aos filhos, eles já estavam formados. No entanto, nos mais de 20 anos que estiveram juntos, o combinado era de que ela ficaria em casa, cuidando da educação dos filhos.

Esta mulher me escreveu há muitos anos, quando eu ainda era colunista na CBN. Eis minha resposta à época:

Perguntas que você tem que fazer quando ele disser que você tem uma profissão e pode trabalhar:

  1. Quem paga os mais de 20 anos de contribuição previdenciária oficial e privada? Afinal, 20 anos fazem muita diferença em um cálculo atuarial.
  2. Quem paga pelos 20 anos de serviços prestados à família, aos filhos e ao suporte profissional do próprio marido? Nos Estados Unidos, um caso judicial ficou famoso, nos anos 1980, em que a mulher pediu parte do bônus recebido pelo ex-marido, presidente de uma grande empresa. Seu argumento foi de que se casaram quando ele era ainda estagiário e seu trabalho, como esposa, inclusive organizando jantares e o acompanhando em eventos oficiais. Ela foi fundamental para que progredisse na carreira.
  3. Quem pagará a contratação de uma empresa de recolocação no mercado? Se ela ficou tantos anos sem trabalhar, não será uma tarefa simples se recolocar.

Não temos o talento da Shakira para contar com a monetização nas redes sociais.

Por isto, há produtos financeiros que ajudam a criar uma rede de proteção; o que no mercado financeiro é conhecido como “hedge “.

O importante, claro, é se preparar.

Isso pode não ser nada romântico, mas é muito prático. Mesmo que ainda esteja na fase de jantares à luz de velas.

Servidora de carreira, Luciana Servo será a nova presidente do Ipea

A nova presidente do Ipea é mestre em economia pela USP e tem doutorado pela UFMG
Luiza Vilela

Luciana Servo: economista é a terceira mulher a comandar o Ipea (Helio Montferre| Ipea/Reprodução)
Luciana Servo: economista é a terceira mulher a comandar o Ipea (Helio Montferre| Ipea/Reprodução)

Ministério do Planejamento informou nesta sexta-feira, 20, que a ministra Simone Tebet escolheu a economista Luciana Mendes Santos Servo para presidir o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Servidora do órgão desde 1998, ela tem sua atuação focada em temas da área da Saúde, como “Avaliação de políticas de saúde”, “Prioriza SUS”, “Contas SHA para o Brasil” e “Conta Satélite de Saúde”.

Entre os trabalhos desenvolvidos por Luciana no órgão estão relatórios do Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP), um estudo sobre a demanda e a oferta de leitos hospitalares e equipamentos de ventilação assistida durante a pandemia, além da análise sobre o gasto dos municípios em atenção primária à saúde no Brasil.

A nova presidente do Ipea é mestre em economia pela USP e tem doutorado pela UFMG.

“Luciana torna-se a terceira mulher a comandar o órgão e a primeira mulher negra”, destacou o Planejamento.

O órgão foi liderado por Aspásia Camargo entre 1993 e 1995 e, de forma interina, por Vanessa Petrelli Corrêa em 2012.

Tebet vinha sendo cobrada pela ausência de profissionais negros na linha de frente da pasta. Em entrevista ao Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) do dia 11 de janeiro, ela disse que divulgaria nesta semana uma nova leva de indicações, com maior diversidade.

“A próxima etapa é colocar a igualdade racial. Esse é um compromisso que a gente tem, estamos vendo vários currículos que estão chegando, estou otimista de que vamos conseguir”, disse a ministra na ocasião.

Obra ‘Brasil Africano’ investiga formação de religiões afro-brasileiras e ataques de evangélicos

Reginaldo Prandi aponta resistência de candomblé e umbanda em meio a demonização de entidades e intolerância religiosa
Camila Crumo

Imagens no terreiro de umbanda Cansuá de Preto Manoel do Congo, na Vila Prudente, em São Paulo – Rubens Cavallari – 23.set.21/Folhapress

[RESUMO] “Brasil Africano“, coletânea que sintetiza a produção intelectual do sociólogo Reginaldo Prandi nos últimos 50 anos, oferece um panorama abrangente das mutações das religiões de matriz africana no Brasil. A obra explora, além do sincretismo com a doutrina católica e a perseguição por igrejas neopentecostais, os fatores culturais, geográficos e socioeconômicos que moldaram o culto de orixás no país e produziram um cenário que combina flexibilidade e resistência, mudança e estabilidade e abandono e memória.

Que caminhos levam um pesquisador a escolher o tema ao qual dedicará a maior parte da sua vida? Como é feita a seleção —e a própria construção— de um objeto de “sucesso”?

A sociologia ensina que nossas escolhas são condicionadas por muito mais fatores que sonha nosso vão individualismo. Não bastasse isso, cada novo passo, por mais planejado que seja, trás consigo um universo de repercussões imprevistas, gerando aquilo que Max Weber chamou de paradoxo das consequências. São por essas encruzilhadas da incerteza que caminha a mudança. Mesmo quando a oferenda funciona e o pai de santo consegue trazer de volta, em sete dias, aquele amor de outrora, a impermanência é a única constante.

O mesmo é verdadeiro para as instituições, entre as quais as religiões. A despeito de geralmente se promoverem como bastiões imutáveis da tradição, elas não são imunes às transformações sociais e às inflexões da história.

Tais mudanças, que se impõem sem serem convidadas e em torno das quais a vida se ajusta, são exatamente o fio condutor de “Brasil Africano: Deuses, Sacerdotes, Seguidores” (Arché). A coletânea de Reginaldo Prandi reúne artigos sobre as religiões afro-brasileiras que evidenciam as transformações sofridas tanto pelo autor quanto por seu objeto de estudo nas últimas cinco décadas.

Ainda em seu início, a própria carreira de Prandi foi marcada por uma mudança inesperada de planos. É verdade que o tema religião aparecia em suas investigações ocasionalmente. Porém, foi somente após ter tido extraviada sua mala repleta de documentos, artigos e livros que juntara nos Estados Unidos para produzir uma tese de livre-docência sobre os efeitos da pesquisa eleitoral no processo democrático que Prandi resolveu se dedicar novamente às religiões afro-brasileiras.

Em um paradoxo das consequências, 50 anos depois, somos brindados com esse livro que é uma espécie de resumo dessa impremeditada trajetória de pesquisa.

A obra pode ser apreciada tanto de forma fragmentada quanto conjunta, como um mosaico. Não é necessária uma leitura linear para compreender os capítulos que entregam detalhes ricos sobre os ritos dos terreiros, as características dos orixás e as organizações hierárquicas das religiões afro-brasileiras, com ênfase no candomblé e na umbanda, vertentes que lograram ultrapassar barreiras raciais e regionais e hoje são praticadas em todo o país.

Contudo, o leitor que se dedicar à apreciação integral do livro será contemplado, ao final, com um panorama bastante completo das mudanças motivadas pelos múltiplos fatores que lapidaram tais religiões e seus ritos em solo brasileiro.

Barracão do Axé Ilê Obá, primeiro terreiro de candomblé tombado em São Paulo, no bairro do Jabaquara, zona sul
Barracão do Axé Ilê Obá, primeiro terreiro de candomblé tombado em São Paulo, no bairro do Jabaquara, zona sul Karime Xavier/Folhapress

Usualmente, o sincretismo com os santos da Igreja Católica é a primeira ideia que nos ocorre ao pensar nas metamorfoses às quais as religiões africanas foram submetidas aqui. Para poder manter o culto aos seus orixás e ser parte de uma sociedade dominada pela doutrina católica, os negros escravizados associaram suas entidades aos santos católicos —conexão que, como assinalado no livro, foi facilitada pela imensa variedade de santos aos quais os fiéis podem recorrer para rogar por objetivos específicos, de forma semelhante à da relação dos devotos e seus orixás.

Prandi, no entanto, evidencia diversos outros fatores socioeconômicos, culturais e até mesmo geográficos que, agindo em conjunto com a dominação religiosa, contribuíram para a constante remodelação do culto dos orixás no Brasil.

O primeiro desses fatores é a própria mudança territorial. Na África, as entidades ligavam-se diretamente aos espaços e objetos naturais sobre os quais tinham domínio. No novo continente, as conexões geográficas e ocupações de origem perderam o sentido, o que foi agravado, mais modernamente, pelo avanço da urbanização e da industrialização.

Assim, nos conta Prandi, alguns orixás de rio, por exemplo, mudaram de especialidade e ficaram restritos à caça; outros foram suprimidos, e ainda outros mudaram o objeto natural ao qual respondiam, como o caso da famosa Iemanjá, conhecida aqui por ser rainha do mar, mas que originalmente seria uma deusa de rio.

O rompimento dos laços familiares é assinalado como outro fator importante na reorganização interna dessas religiões. Originalmente, o candomblé tem sua estrutura hierárquica baseada na das famílias extensas iorubás.

No Brasil, apesar de persistir a noção de que o terreiro pertence a seu fundador, o comando tendeu a ficar a cargo de mulheres negras libertas ou forras, não sendo mais prerrogativa do homem chefe da família extensa. Além disso, a separação dos membros das famílias reuniu, aqui, diversos orixás dentro de um único terreiro, algo que não ocorria nas comunidades iorubás, onde cada família cultuava um único orixá. Ou seja, no Brasil, a cada novo membro de um terreiro, um altar para o orixá do recém-chegado lhe era acrescentado.

Retrato de mãe Carmen de Oxum, iálorixá do terreiro Ilê Olá Omi Axé Opô Àráká, de São Bernardo
Retrato de mãe Carmen de Oxum, iálorixá do terreiro Ilê Olá Omi Axé Opô Àráká, de São Bernardo Karime Xavier/Folhapress

Das transformações modernas, Prandi destaca as aglutinações que se formaram em torno da umbanda, culto que foi um dos principais responsáveis pela popularização das religiões afro-brasileiras. A umbanda nasce da interação entre candomblé, religiões indígenas, kardecismo e catolicismo. Seus rituais e crenças são fruto de uma bricolagem de entidades, ritos e lógicas dessas quatro vertentes, uma montagem que fez com que ela fosse celebrada, por muito tempo, como a religião “verdadeiramente” brasileira.

Nessa composição, as entidades cultuadas englobam orixás africanos e outros representantes das culturas regionais de diversas partes do Brasil, como os caboclos (entidades indígenas), os marinheiros e os baianos, ao passo que conceitos cristãos de moralidade, que dividem o mundo entre “bem” e “mal”, se somam à noção de caridade, tão cara ao kardecismo.

Com preceitos morais alinhados aos dos cristãos, a umbanda foi inicialmente encarada como uma religião “do bem”, conquistando, assim, um espectro mais amplo de praticantes. Há, no livro, provas de que sua rápida expansão por todo o país levou pesquisadores da religião a acreditar, à época, que ela se tornaria a religião majoritária do Brasil, tomando o espaço do catolicismo, que já dava sinais de crise.

Nessa esteira, o candomblé passou a também cair na graça dos brasileiros. Gradativamente, foi se transformando de religião de resistência, praticada quase exclusivamente por pretos, em religião popular, agregando negros e brancos, inicialmente de camadas sociais baixas, mas, posteriormente, de camadas médias e altas.

Diferentemente do que se previa, no entanto, as religiões afro-brasileiras logo passaram a encolher, como mostraram os sucessivos Censos. Prandi menciona o contraste organizacional como um dos fatores que influenciaram a competição entre religiões afro-brasileiras e evangélicas pela mesma fatia da sociedade e no interior de um mercado religioso em expansão.

Enquanto as denominações evangélicas modernas estabeleceram uma estrutura empresarial, com canais de comunicação, planos de expansão e representação política, os terreiros, em geral, se mantiveram como pequenas empresas familiares, muito ligadas à presença do fundador, que é também sua autoridade máxima. Assim, as igrejas evangélicas conseguiram se tornar religiões de massa, ao passo que as religiões afro-brasileiras permaneceram apegadas às tradições rituais que as mantêm como culto de pequenas comunidades.

Crianças no Centro Espiritualista de Umbanda Estrela Guia,
Crianças no Centro Espiritualista de Umbanda Estrela Guia, Karime Xavier/Folhapress

Prandi salienta ainda outro fator que passou a desequilibrar a balança da competição religiosa: a perseguição às religiões afro-brasileiras como projeto de expansão das igrejas neopentecostais. Nessa cruzada, a associação entre entidades como Exu e Pombagira e o demônio foi reforçada e instrumentalizado como arma religiosa. Responsabilizadas por todo o mal do mundo, essas entidades se tornaram personagens frequentemente “interpelados”, “interrogados” e “expulsos” nos cultos evangélicos.

A consequência da demonização de entidades das religiões de orixás é, inevitavelmente, a intolerância religiosa, que só vem se agravando nos últimos anos, como mostram diversos levantamentos.

Com relação a esse triste fardo arrastado ao longo de toda a história dessas religiões no país, o que mudou foi a fonte da repressão que, como Prandi nos conta ao longo da obra, inicialmente foi promovida pela Igreja Católica, posteriormente (em especial durante a ditadura) pela própria polícia e, atualmente, por lideranças evangélicas e fiéis dispostos a vencer a concorrência religiosa por meio da violência, do preconceito e da estigmatização.

Apesar disso, as religiões afro-brasileiras resistem e, como se pode depreender da leitura, continuarão mudando enquanto estiverem vivas sem, no entanto, mudar completamente. Talvez seja esse aspecto que torna o estudo das religiões afro-brasileiras tão fascinante: o fato de unirem flexibilidade e resistência, mudança e estabilidade, abandono e memória.

Ainda que muito se tenha discutido sobre elas, haverá sempre algo a ser investigado, alguma inovação disfarçada de tradição. Por isso, mais que documentar a produção de Prandi nos últimos 50 anos e mapear a dinâmica social das religiões afro-brasileiras, “Brasil Africano” é um convite instigante para continuarmos seguindo as pistas deixadas na trilha da mudança religiosa.

BRASIL AFRICANO: DEUSES, SACERDOTES, SEGUIDORES