Tela misteriosa pode ser de Rafael, aponta tecnologia de inteligência artificial

Reconhecimento facial ajuda pesquisadores a atribuírem ao mestre renascentista autoria da tela ‘de Brécy Tondo’

Tela ‘de Brécy Tondo’ é muito provavelmente um Rafael – DeBrécy Trust

SÃO PAULO – A tecnologia de reconhecimento facial descobriu que uma pintura de autoria desconhecida é muito provavelmente uma obra do renascentista Rafael.

Com base nas semelhanças entre os rostos da Madonna na tela sem autoria, conhecida como “de Brécy Tondo”, e na “Madonna Sistina” de Rafael, pesquisadores da Universidade de Nottingham e da Universidade de Bradford, ambas no Reino Unido, determinaram que há 97% de chances da tela misteriosa ser uma obra de Rafael.

Os estudiosos compararam os dois trabalhos usando um sistema de reconhecimento facial de inteligência artificial que o professor de computação visual da Universidade de Bradford Hassan Ugail começou a desenvolver em 2002.

A semelhança entre as Madonnas nas duas pinturas foi de 97%. Uma similaridade acima de 75% é considerada idêntica.

“Observar os rostos com o olho humano mostra uma semelhança óbvia, mas o computador pode ver muito mais profundamente do que nós, em milhares de dimensões, em nível de pixel”, disse Ugail em um comunicado anunciando a descoberta. Nos próximos dias será publicado um artigo acadêmico com mais detalhes da análise.

Christopher Brooke, pesquisador honorário da Universidade de Nottingham e coautor de um trabalho de pesquisa sobre a descoberta, disse que “outra confirmação vem da análise dos pigmentos empregados no Tondo, que demonstraram que as características da pintura são consideradas típicas da prática renascentista”.

Artista japonesa Yayoi Kusama de 93 anos pinta todos os dias em hospital psiquiátrico

Yayoi Kusama é a artista viva que mais vendeu peças no mundo e está com uma exposição em Hong Kong
Stephy ChungKristie Lu Stout da CNN

Uma imagem de Kusama usando uma peruca vermelha característica, apresentada em materiais de exibiçãoNoemi Cassanelli/CNN

Aos 93 anos, a artista viva que mais vendeu peças no mundo ainda pinta diariamente no hospital psiquiátrico em que ela se internou voluntariamente e vive desde os anos 1970.

Algumas de suas últimas criações aparecem ao lado de desenhos iniciais em uma nova exposição no museu M+ de Hong Kong.

Reunindo mais de 200 obras, “Yayoi Kusama: 1945 até agora” abrange sete décadas como a maior retrospectiva de sua arte na Ásia fora de seu país natal.

Mais conhecida por suas esculturas de abóbora e pinturas de bolinhas, que podem render milhões de dólares em leilão, o sucesso de Kusama disparou na última década.

As partes mais fotogênicas de sua obra – incluindo suas instalações imersivas “Infinity Mirror Room” (Quarto de Espelho Infinito, em tradução livre), cujos ingressos se esgotam em museus de todo o mundo – alcançaram o apelo popular na era das mídias sociais.

Desnecessário dizer que sua nova exposição em Hong Kong está repleta de locais “instagramáveis”. Mas o vice-diretor do museu, Doryun Chong, que co-curou a mostra, diz que espera que os visitantes aproveitem a oportunidade para mergulhar mais fundo.

“Kusama é muito mais do que esculturas de abóbora e padrões de bolinhas”, explicou. “Ela é uma pensadora de filosofia profunda – uma figura inovadora que realmente revelou muito sobre si mesma, sua vulnerabilidade (e) suas lutas como fonte de inspiração para sua arte”.

Autorretratos da artista / Noemi Cassanelli/CNN

Infinito e além

Organizado cronologicamente e tematicamente, o programa explora conceitos que Kusama revisitou em vários meios ao longo de sua carreira.

A noção de infinito, por exemplo, aparece na forma de motivos repetitivos inspirados nas vívidas alucinações vividas na infância, quando via tudo ao seu redor consumido por padrões aparentemente infinitos.

Os visitantes têm uma noção de como essas formas evoluíram, começando em uma sala cheia de suas pinturas “Infinty Net” (Rede Infinita, em tradução livre) – incluindo um trabalho inovador que ela criou depois de ver o Oceano Pacífico pela primeira vez de uma janela de avião quando se mudou para o EUA do Japão em 1957.

Essas redes aparecem novamente em “Self-Obliteration” (Auto-obliteração, em tradução livre), uma instalação criada entre 1966 e 1974, um período depois que Kusama se estabeleceu no mundo da arte dominado por homens em Nova York, apesar da discriminação que enfrentou como mulher, e japonesa.

Ela acreditava que colegas do sexo masculino como Andy Warhol copiavam suas ideias sem crédito.

Composto por seis manequins ao redor de uma mesa de jantar, cada centímetro da escultura – desde as figuras humanas até os móveis e talheres – é coberto com pequenas pinceladas em looping.

Quem foi Jean-Michel Basquiat, o gênio que se tornou o artista negro mais valorizado do mundo

Em menos de uma década, Basquiat saiu das ruas do Brooklyn e se tornou uma lenda da arte mundial. Mas sua vida teve um final trágico.
Ronald Ávila-Claudio

Jean-Michel Basquiat
Jean-Michel Basquiat – Getty Images

BBC NEWS BRASIL – O ano era 1978. O pintor e cineasta norte-americano Andy Warhol já era uma estrela consagrada quando se encontrou com o crítico de arte Henry Geldzahler em um restaurante no Soho, em Nova York, nos EUA.

Um jovem negro os reconhece do lado de fora e decide aproximar-se, mostrando cartões-postais desenhados por ele mesmo entre as mãos. Warhol, conhecido como o rei da arte pop, compra um dos cartões, enquanto o crítico afasta o adolescente, chamando-o de pirralho.

Aquele jovem ousado de 17 anos chamava-se Jean-Michel Basquiat.

Três anos depois daquele encontro, ele se tornaria uma figura importante da arte nova-iorquina. E, em menos de uma década, seria tão reconhecido internacionalmente quanto seu ídolo Warhol.

Hoje, mais de 30 anos depois da sua morte prematura em 1988, Basquiat é o artista negro mais bem cotado da história.

Com seus traços “primitivos”, suas obras apresentam importantes sucessos históricos, frequentemente relacionados com a cultura urbana e a realidade da comunidade negra e latina. Elas são vendidas por milhões de dólares.

Sua obra “Sem Título”, de 1982, mostrando uma caveira colorida pintada com linhas grossas, foi leiloada pela casa Sotheby’s em 2018, por US$ 110,5 milhões, cerca de R$ 575 milhões. Na época, foi o valor mais alto pago a um artista americano.

Quadro Sem Título de fundo azul com imagem que lembra um rosto
O quadro ‘Sem Título’ (1982) foi leiloado pela casa de leilões Sotheby’s por US$ 110,5 milhões (cerca de R$ 575 milhões) – Getty Images

Basquiat nasceu em 22 de dezembro de 1960. Seu pai era haitiano-americano e sua mãe tinha ascendência porto-riquenha. Ele deixou de viver nas ruas para fazer sucesso sem nunca ter cursado formalmente uma escola de arte. Não chegou sequer a concluir o ensino médio.

Para alguns, como o diretor do Museu Pérez em Miami, nos Estados Unidos, Franklin Sirmans, que foi curador de diversas exibições sobre o artista, Basquiat é “um gênio do nosso tempo”.

“Eu diria que é um dos artistas mais famosos do planeta. Suas pinturas não são apenas obras de arte únicas, mas têm também a capacidade de traduzir os problemas e preocupações da época em sentido contemporâneo, além de um sentido histórico muito profundo”, afirmou Sirmans, que também é escritor, em entrevista à BBC News Mundo —o serviço de notícias em espanhol da BBC.

Basquiat foi irreverente, tanto no lado pessoal quanto no artístico, criando um estilo longe de qualquer paradigma, com enorme desejo de ser reconhecido. Ele admirava estrelas como Janis Joplin e Jimi Hendrix que, por coincidências da vida, morreram como ele aos 27 anos, por overdose de drogas.

Jean-Michel Basquiat começou a desenhar nas folhas de papel que seu pai, Gerard, que era contador, trazia para casa do escritório.

Sua mãe também desenhava e o levava constantemente a ver exibições em lugares como o Museu de Arte Metropolitano de Nova York e o Museu do Brooklyn. Existe boa documentação que comprova que foi ela quem o inspirou a seguir a carreira artística.

Jovem Jean-Michel Basquiat
Jean-Michel Basquiat morreu com apenas 27 anos em 1988, deixando um enorme acervo de obras que hoje são vendidas por milhões de dólares – Getty Images

Em 1969, por exemplo, Basquiat foi atropelado por um carro, sofrendo diversas fraturas. Quando ficou internado no hospital, sua mãe o presenteou com uma cópia do livro “Anatomia de Gray”, que se tornaria uma inspiração para seus desenhos anatômicos posteriores.

“Já declarei que minha mãe me deu todas as coisas primárias. A arte vem dela”, disse o próprio artista sobre sua mãe, Matilde Andradas, em uma entrevista em 1986.

Mas, depois do divórcio dos pais e de várias mudanças, incluindo uma estada curta em Porto Rico, Basquiat tornou-se um jovem rebelde que fugia constantemente de casa.

Aos 17 anos, ele foi expulso por má conduta da escola alternativa City-As-School, de Nova York. Foi ali que ele conheceu o colega Al Díaz, com quem começou um projeto de grafite que chamaram de Same Old Shit, “Sempre a mesma porcaria”, em tradução livre —SAMO, na sigla em inglês.

SAMO era simplesmente conceitual. Os dois artistas escreviam poemas filosóficos nas paredes da cidade de Nova York.

“Ele não tinha uma galeria, de forma que fez do metrô e das paredes ao lado das galerias de arte do Soho e da baixa Manhattan sua própria galeria”, comenta Sirmans.

A notoriedade de Basquiat no mundo artístico começou assim que o jornal The Village Voice escreveu sobre o trabalho SAMO em 1978, apenas um ano antes da morte do conceito.

Quadro 'Cabra' de fundo vermelho com figura de caveira branca com chifres
‘Cabra’ é uma obra de Basquiat que, em 2017, valia de US$ 7 milhões a US$ 9 milhões (cerca de R$ 36,5 milhões a cerca de R$ 47 milhões) – Getty Images

Mas o pintor começou uma carreira solo deslumbrante, que teve origem quando foi convidado a participar do Time Square Show, em 1980, uma influente mostra coletiva curada e administrada pelos próprios artistas expositores, incluindo personalidades como Keith Haring e Jenny Holzer.

Em 1981, ele já tinha exposições individuais e suas obras eram vendidas por milhares de dólares. Com 24 anos de idade, as obras de Basquiat ocupavam espaços no Museu Whitney da Arte Americana, no Museu de Arte Moderna e eram adquiridas por importantes colecionadores. Eles também viajavam para diversos lugares, desde a Costa do Marfim até a Alemanha.

“Acredito que seu trabalho seja tão popular em todo o mundo porque ele fala para diferentes classes e grupos demográficos”, destaca Sirmans. “Sua vida fala para pessoas diferentes, de uma forma que a vida de outros artistas, sejam quais forem seus níveis de vendas nos leilões, não alcança. Eles não são tão interessantes como seres humanos.”

Sua arte inclui centenas de pinturas, grafismos e intervenções de objetos. Ela é salpicada de elementos urbanos e carregada de símbolos repetidos, como caveiras ou coroas, que recebem inúmeros significados dos historiadores e hoje fazem parte da cultura popular.

Quadro Sem título, de 1984, que mostra uma figura que parece uma cara rudimentar com uma coroa
O quadro ‘Sem Título’ (1984) inclui uma coroa, que era um dos símbolos mais repetidos por Jean-Michel Basquiat em suas obras – Getty Images

As criações de Basquiat aparecem em trabalhos de outros artistas, camisetas, objetos diversos e até filmes. E também são mencionados em músicas de artistas contemporâneos, como as músicas “BBC” e “That’s My Bitch”, dos rappers americanos Jay-Z e Kanye West, respectivamente.

As reportagens da época sobre Basquiat não só descrevem seu enorme talento e as vultosas vendas das suas criações, mas também que o jovem artista frequentava as festas e coquetéis mais exclusivos de Nova York, relacionando-se com figuras importantes.

Ele foi colega de Madonna em 1982, por exemplo, quando a cantora ainda começava sua carreira colossal.

Basquiat também conheceu e tornou-se amigo íntimo daquele homem que conheceu com 17 anos de idade —Andy Warhol. Ambos se admiravam e influenciaram o trabalho um do outro. Em 1985, eles inauguraram uma importante mostra conjunta, que marcou a volta de Warhol à pintura, depois de anos experimentando outros meios.

Na Nova York dos anos 1980, os artistas plásticos eram assediados pela imprensa como estrelas do rock. Basquiat e Warhol eram parte deste seleto grupo que era presença constante em festas e coquetéis. Na foto, eles aparecem com a modelo Tina Chow
Na Nova York dos anos 1980, os artistas plásticos eram assediados pela imprensa como estrelas do rock. Basquiat e Warhol eram parte deste seleto grupo que era presença constante em festas e coquetéis. Na foto, eles aparecem com a modelo Tina Chow – Getty Images

“Jean-Michel me fez pintar diferente, isso é algo bom”, escreveu Warhol no seu diário, em 1984. Mas a colaboração recebeu fortes críticas negativas na imprensa, o que afetou sua relação e fez com que eles se afastassem.

Uma nota do jornal The New York Times em 1988 destacou que Warhol, autor das pinturas das Sopas Cambpell’s, foi uma das pessoas que mais advertiram Basquiat sobre seu excessivo uso de drogas, uma problemática que marcou sua carreira.

A mesma nota descreveu Basquiat como um prodígio, mas também como alguém que agia constantemente de forma “errática”, distraído pelo peso da fama.

O certo é que ele também enfrentou o complexo mundo da arte da sua época, no qual era uma das poucas pessoas negras que haviam atingido nível tão alto de sucesso. Há quem afirme que os distribuidores de arte ofereciam drogas em troca de suas pinturas e uma reportagem chegou a chamá-lo de “mascote” de Andy Warhol.

Quadro Africanos de Hollywood, de fundo amarelo com palavras e imagens com aparência de rabisco
Jean-Michel Basquiat criou a obra ‘Africanos de Hollywood’ em 1983 – Getty Images

“Era um gênio precoce, que fazia obras para um mundo que não necessariamente o entendia”, afirma Sirmans.

No dia 12 de agosto de 1988, depois de tentar reabilitar-se várias vezes de sua dependência, Basquiat foi encontrado morto na Great Jones Street n° 54, em Nova York. Tinha apenas 27 anos de idade. Morria o artista, nascia a lenda.

Morre Judith Lauand, pioneira e grande dama do concretismo no país, aos 100

Pintora morreu em sua casa, em São Paulo, poucos dias depois de ter uma grande retrospectiva de sua obra aberta no Masp
João Perassolo
Claudio Leal

obra de arte
Judith Lauand em sua formatura na Escola de Belas Artes em Araraquara, em 1950 – Acervo Judith Lauand

SÃO PAULO e SALVADOR – Poucos dias depois da abertura da maior retrospectiva de sua obra, a artista Judith Lauand morreu em sua casa, em São Paulo, nesta sexta-feira pela manhã, meses antes de completar 101 anos. A informação é de sua galerista e amiga Berenice Arvani, que já organizou diversas mostras da pioneira do movimento concreto.

Arvani afirmou que a morte não teve uma causa específica, e se deveu ao fato de a artista estar “bastante debilitada”. Conforme a idade avançava e a saúde de Lauand se deteriorava, ela foi deixando de trabalhar em seu ateliê, localizado em seu apartamento, no bairro de Pinheiros, e passou a viver reclusa.

Lauand será velada ainda nesta sexta e enterrada na manhã deste sábado. O velório será em São Paulo, mas a família prefere não divulgar o local.

Segundo a galerista, Lauand não chegou a ver pessoalmente sua retrospectiva recém-aberta no Masp, o Museu de Arte de São Paulo, mas viu um filme da mostra e ficou emocionada.

Sua última aparição pública se deu na abertura da exposição “Judith Lauand: Os Anos 50 e a Construção da Geometria”, no Instituto de Arte Contemporânea, o IAC, em 2015. Desde então, ela permaneceu em casa, sem dar entrevistas.

Pintora e gravadora, Lauand foi a única mulher a integrar o grupo Ruptura, de Waldemar Cordeiro, a partir dos anos 1950, o movimento disparador da arte concreta no Brasil —ela era uma presença feminina expressiva num círculo artístico de poderio masculino.

Em confronto com o abstracionismo, sua pintura passou a absorver mais e mais, a partir daquele ano, os processos matemáticos na composição de cores e planos.

A exposição no Masp, “Judith Lauand: Desvio Concreto”, perpassa seu trabalho em 124 obras, dos anos 1950 até a década de 2000. É possível acompanhar o desenvolvimento de sua arte, começando pela sua fase figurativa, logo após ter se formado na Escola de Belas Artes de Araraquara, como se pode ver no quadro “Operário”, de 1951, uma tela que mostra um trabalhador talhando seu material de trabalho.

“Um aspecto crucial de sua trajetória que foi deixado à margem é a presença de questões políticas em sua obra, como a repressão da ditadura militar no Brasil, a Guerra do Vietnã e a condição da mulher na sociedade brasileira, quando Lauand aborda temas como violência, sexualidade, submissão e liberdade feminina”, afirma Fernando Oliva, curador da exposição no Masp.

Representativas dessas derivações políticas, estão expostas as telas “Atenção”, de 1968, “Stop the War” e “Temor à Morte”, de 1969.

Nascida em Pontal, no interior de São Paulo, Lauand esteve cercada pela arte desde a primeira infância, numa casa em que se ouvia boa música e onde se liam bons livros. Num ato de mecenato, a família Lupo convidou a jovem artista para estudar na Itália, mas, com menos de 18 anos, ela não conseguiu a permissão de seu pai.

O sonho de olhar de perto os quadros dos mestres da pintura só seria realizado aos 76 anos. Em 1998, acompanhada pela irmã, Olga, e pelas sobrinhas-netas Elissa e Patrícia, Lauand entrou pela primeira vez em um avião e realizou uma viagem extensa pela Europa, visitando museus da Espanha, da Itália, da França e do Reino Unido. À noite, de tão ansiosa, perdia o sono. No Louvre, choraria diante da “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci.

obra de arte
Judith Lauand atua como monitora na 2ª Bienal de São Paulo, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em janeiro de 1954 – Acervo Judith Lauand

A artista viveu exclusivamente de sua arte. “Não escreveu críticas nem fez curadorias. Sempre viveu apenas da venda de seu trabalho”, conta Manoel Lauand, seu sobrinho.

Lauand chegou a desfazer dois noivados para se dedicar à carreira. “Ela foi a transgressora da família”, diz Elisa Lauand, sobrinha-neta de Lauand. “E nunca se casou, chegou a fazer uma cópia de um anel de noivado e ficou usando, para não ter confusão com os pais.”

Um momento importante em sua carreira foi em 1954, quando ela trabalhou como monitora da segunda Bienal de São Paulo. Na ocasião, a jovem entrou em contato com a efervescência cultural do circuito das artes plásticas à época, conhecendo as obras de Geraldo de Barros Alexandre Wollner.

Também em 1954, Lauand realizou a primeira exposição individual da carreira, na galeria Ambiente. No ano seguinte, Waldemar Cordeiro a convidou para integrar o Ruptura. No interior do grupo, se liberta da figuração para alcançar a abstração geométrica.

Em 1956, com novo pioneirismo, Lauand participou da 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que marcou sua aproximação com a poesia concreta de Décio Pignatari e dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos.

“Apesar de todos os membros do grupo Ruptura serem seguidores das propostas do artista suíço Max Bill (1908-1994), cada um deles possuía suas singularidades”, afirma Celso Fioravante, crítico vinculado a exposições da artista na década de 2000.

“A diferença de Judith Lauand é que ela entrou no grupo em um segundo momento, ao lado de Fiaminghi e Nogueira Lima, e ainda era uma artista em formação, advinda da figuração, quando os membros iniciais do grupo já se mostravam como um grupo coeso, adeptos do concretismo que vigorava com força na Europa e em países da América do Sul, como Venezuela, Uruguai e Argentina”.

“Minha integração na arte concreta foi total”, disse a artista, que preservou suas primeiras escolhas, em meio a rupturas geracionais. “Não vi com bons olhos a criação do neoconcretismo. Pensei: se os concretos do Rio colocaram a necessidade de exprimir-se, de tornar expressivo o vocabulário da arte concreta, que o façam”.

Pinacoteca abre nova sede em janeiro com aceno ao mundo da arte asiática

Pina Contemporânea terá obras da sul-coreana Haegue Yang e da chinesa Cao Fei; Pina Luz faz incursão na arte indígena
Gustavo Zeitel

0
Obra de Sônia Gomes, que será apresentada em mostra de 2023 na Pinacoteca – Divulgação

SÃO PAULO – A Pinacoteca de São Paulo anunciou nesta sexta-feira (11) a programação de 2023, que inclui a abertura, em 23 de janeiro, de uma nova sede, a Pina Contemporânea. O espaço passa a integrar o conjunto arquitetônico da instituição, já composto pelos edifícios da Pina Luz e Pina Estação.

Sonho antigo da administração do museu, a Pina Contemporânea vai expor obras de artistas do nosso tempo, com uma estrutura capaz de abrigar instalações e esculturas de grandes dimensões. Não à toa, a programação se inicia no mesmo dia no edifício com a mostra da sul-coreana Haegue Yang, artista de proeminência internacional.

Ela se tornou conhecida pelas instalações feitas com materiais que estimulam os sentidos do olfato e do tato, reorientando a percepção de suas próprias obras.

“Sempre nos preocupamos em unir a arte brasileira com o que acontece no mundo, já que São Paulo é uma cidade global”, diz Ana Maria Maia, curadora-chefe da Pinacoteca. “No caso da Haegue Yang, também é uma oportunidade para fazermos um aceno à comunidade coreana, tão presente em nossa metrópole.”

Nesse sentido, o edifício recebe em setembro peças da chinesa Cao Fei, que explora a relação entre arte e tecnologia, com obras sobre realidade virtual e performances em mídias digitais.

Já a Pina Luz, recebe em março a maior exposição individual do artista indígena Chico da Silva, compreendendo a produção entre 1943 e 1984. Com obras inéditas, a mostra apresenta a iconografia do artista que representa toda a cosmovisão indígena.

Denilson Baniwa, artista-jaguar, traça caminho semelhante, em mostra que abre no mesmo mês. Em suas obras, ele faz uma reflexão sobre a vivência do indígena no mundo contemporâneo.

Ainda na Pina Luz, se destaca a mostra da argentina Marta Minujín, principal artista viva do país. Com abertura marcada para julho, a exposição delimita o período em que Minujín se deteve à arte pop até os seus tão famosos happenings. No segundo semestre, também são abertas exposições de Sônia Gomes e Montez Magno.

Por fim, a Pina Estação traz em abril uma exposição da escultora, gravadora e desenhista Elisa Bracher e Regina Parra, que explora relações entre teatro, body art e pintura. “A imaginação é o eixo que une todas essas exposições”, afirma Maia. “Mas, antes de tudo, com a nova sede esperamos ter outra relação com o público, mais cotidiana, com a população do bairro em que estamos voltando várias vezes para nos visitar.”

Catedral de Salamanca na Espanha expõe corpo hiper-realista de Jesus Cristo

Após 15 anos de pesquisa, a reprodução baseada na imagem do Santo Sudário é a principal atração da mostra ‘O Homem Misterioso’

Reprodução do corpo de Jesus Cristo impressiona fiéis na Espanha – Divulgação/Diocese de Salamanca

Uma exposição chamada “O Homem Misterioso” tem chamado a atenção dos visitantes da Catedral de Salamanca, Espanha. Inaugurada recentemente, a mostra tem uma reprodução hiper-realista de Jesus Cristo baseada na imagem do Santo Sudário, ou Sudário de Turim, o pano de linho que teria sido utilizado para envolver Jesus após sua crucificação.

O trabalho de representação de Jesus impressiona pelos detalhes: o corpo é feito de látex com silicone, tem cabelo humano, 1,78 m de altura e pesa 75 quilos. Criada após 15 anos, a escultura tem ainda pernas semiflexionadas e está com as mãos cruzadas na altura do púbis. O corpo apresenta os sinais da tortura sofrida pelo filho de Deus como as lacerações na cabeça, produzidas pela coroa de espinhos e as feridas nos ombros devido ao peso da cruz.

“Esse corpo reflete uma tortura mais dura do que a pintura sempre refletiu, com uma morte atroz causada não só por crucificação, mas também por flagelação”, explica o curador da exposição, Ángel Blanco. Em 2025, a mostra deve seguir para Turim, casa do Santo Sudário, e também para Roma.

True bromance: Brad Pitt, Nick Cave e o artista Thomas Houseago ajudando-os a se curar

No coletivo WE de Thomas Houseago, a amizade e a recuperação são tão importantes quanto a arte
Vitória Woodcock . Fotografia por Maureen M Evans

O trio com Gate I (2018-22) de Thomas Houseago © Maureen M Evans. Estúdio Cortesia Houseago

Somos apenas três caras, e estamos apenas fazendo coisas”, diz Thomas Houseago, artista nascido em Leeds e baseado em Los Angeles. Ele está falando sobre si mesmo, dois de seus amigos mais próximos – que por acaso são o músico Nick Cave e o ator Brad Pitt – e sua nova exposição coletiva de arte. A bizarrice desse trio não passa despercebida para ele. “Sabemos que somos totalmente ridículos. Mas é real,” ele acrescenta, sua voz cheia de energia. “Se você vê Brad Pitt – o Brad Pitt, certo? Você sabe, tanquinho, abdômen, o que for – isso é uma criação de filme. É fantástico, adoro. Ele é um dos maiores atores de sua geração. Mas há outro humano, que eu conheço, que me permitiu respirar de uma nova maneira. E eu gostaria de pensar que fiz o mesmo por ele.”  Os três homens estão reunidos no café do Museu de Arte Sara Hildén em Tampere, a segunda maior cidade da Finlândia, onde acaba de inaugurar a exposição, da qual Houseago é o pivô. O artista é representado comercialmente pela Gagosian , mas esta é sua primeira grande mostra em museu desde 2019, e engloba tanto obras escultóricas, em madeira, bronze e gesso, quanto pinturas. Ele se concentra em sua “jornada dos últimos três anos” – um período durante o qual ele sofreu um sério colapso e passou por recuperação. “Estou meio que renascendo no momento”, diz ele. “Eu não sou mais eu. Eu costumava ser eu. Eu me lembro daquele cara, mas não sou eu. E se eu for fazer meu primeiro show após a recuperação – e este é um grande momento para mim – farei isso em segurança e com meus colaboradores criativos.” 

Houseago, Cave e Pitt no Museu de Arte Sara Hildén em Tampere © Maureen M Evans

A exposição, intitulada WE , rejeita o conceito de artista solitário em favor de uma abordagem mais conectada e coletiva da arte. É a primeira vez que Pitt e Cave exibem suas obras de arte – Pitt está mostrando uma série de esculturas, enquanto Cave está exibindo uma série narrativa sombria de estatuetas de cerâmica. Explorar sua criatividade juntos forjou uma amizade extraordinária. 

“Fomos jogados juntos em trauma e catástrofe”, diz Houseago, referindo-se às suas lutas compartilhadas que vão desde o vício – Houseago e Pitt com álcool, Cave com heroína nos anos 80 – até o divórcio muito divulgado de Pitt e batalha de custódia, as mortes de dois dos filhos de Cave, e a percepção de Houseago de abuso infantil. Essa série de circunstâncias cruas e brutais ajudou a libertá-los de certas inibições, e agora eles compartilham um relacionamento que pode ser descrito como um bromance. 

“Posso contar uma coisa que aconteceu esta manhã?” diz Cave, definindo o cenário da casa à beira do lago em que todos estão hospedados e onde eles estavam comemorando o aniversário de sua esposa – a estilista Susie Cave – na noite anterior. “Foi assim: acordei esta manhã, fiz um café de cueca e notei que Brad estava sentado ali. Ele começou a tocar violão e cantou uma das minhas músicas para mim – “Palaces of Montezuma” – e então Thomas entrou [de pijama] e se juntou.” 

Thomas Houseago, Brad Pitt e Nick Cave no estúdio de elenco de Houseago (palco, cadeiras, cama, monte, caverna, banho, túmulo), 2018 © Maureen M Evans. Estúdio Cortesia Houseago

Enquanto Houseago diz que eles fizeram uma interpretação “muito boa”, Pitt ri e acrescenta: “Na verdade, não fizemos! Mas fiquei mais impressionado com a elegância, cara. Thomas sai com o cabelo para cá, tenho bagagem debaixo dos olhos. E Nick aparece em shorts combinando e uma camisa de botão, um espectro de elegância.” Na abertura da exposição mais tarde naquele dia, um grito caloroso de Houseago sinaliza a chegada do trio. “Somos como uma boy band!” ele fala sobre a tripulação díspar: Cave, de 65 anos, caracteristicamente gótico, beirando o vampírico, em um terno escuro ultrafino (de sua amiga Bella Freud); Pitt, ainda rudemente bonito aos 58 anos, em um macacão e ainda assim sem esforço; e Houseago, 50, vestindo jeans com uma camisa branca de abotoar, por onde você pode ver suas tatuagens. “Esse estranho elenco de personagens entrou na minha vida em um momento incrível”, diz Houseago. “E eles amaram em mim. Brad disse: ‘Eu te amo’. Eu disse que te amo.’ Sem Nick e Brad, eu literalmente não estaria aqui.” 

Duas obras de arte intituladas Self-Inflicted Gunshot Wound to the House, 2017, de Brad Pitt © Courtesy Studio BeeP, Los Angeles

Pitt e Cave se conhecem há décadas; ambos foram escalados para o filme Johnny Suede , de 1991, mas Pitt e Houseago só foram reunidos há seis anos, em uma festa de Ano Novo. Houseago estava lutando com sua saúde mental e Pitt havia se separado recentemente de sua segunda esposa, Angelina Jolie. Uma separação que posteriormente se tornou um frenesi da mídia . Eles se acertaram imediatamente. “Nossa miséria mútua tornou-se cômica”, diz Pitt, que começou a frequentar o estúdio do escultor regularmente, encontrando uma saída artística. “E dessa miséria surgiu uma chama de alegria em minha vida. Sempre quis ser escultor; Sempre quis experimentar.” Pitt então apresentou Houseago a Cave, levando-o para ver o documentário de 2016 de Andrew Dominik, One More Time With Feeling .– sobre o making of de Skeleton Tree,  o álbum criado após a morte de Arthur, filho adolescente de Cave. 

Depois disso, diz Cave, “começamos a nos encontrar como um grupo – uma coleção estranha e diversificada de pessoas que se sentavam em volta de uma mesa nos fins de semana”. Os jantares foram acompanhados por nomes como Dominik (que recentemente dirigiu o filme Blonde , produzido pela produtora Plan B de Pitt, e com trilha sonora de Cave e seu colaborador de longa data Warren Ellis), o diretor Spike Jonze e Flea do Red Hot Chili Peppers . “Sair e conversar com as pessoas livremente sobre as coisas, isso era algo novo para mim”, continua Cave. “Normalmente, eu apenas trabalho e faço minhas coisas, e tenho meus amigos e todo esse tipo de coisa. Mas tínhamos permissão para falar sobre qualquer coisa. E, para mim, essa foi uma situação muito libertadora para se estar.” 

A camaradagem fácil do trio se desenrola ao longo da sessão de fotos, que tem como pano de fundo o trabalho de gesso, cânhamo e vergalhões de Houseago, Cast Studio (palco, cadeiras, cama, montículo, caverna, banho, túmulo) (2018). Os três homens conversam. Eles brincam por aí. Houseago tira os sapatos e posa na cama de gesso. Ele começa a cantar. É mais do que um pouco surreal. No momento em que a filmagem começa, Houseago está cantando “The Sound of Music” e Pitt está dançando, fazendo piruetas em direção à câmera. 

O conceito de “nós” do trio transmite uma “mensagem simples, mas forte de amor, esperança, amizade e perdão, celebrando a criatividade sobre as forças destrutivas”, diz a curadora-chefe de Sara Hildén, Sarianne Soikkonen. A nova abertura é, diz ela, “uma exposição importante, onde Thomas Houseago está se reinventando como um escultor que agora também mostra pinturas excepcionalmente fortes”. 

Da esquerda: Lechuza, 2020, Squatting Man, 2005, Episódio (junho), 2022 e Gold Walking Man, 2021, todos de Thomas Houseago © Jussi Koivunen/Sara Hildén Art Museum

De muitas maneiras, apesar do furor da imprensa em grande parte centrado na primeira incursão de Pitt na arte, este é o momento de Houseago, com Pitt e Cave desempenhando papéis coadjuvantes. Seu passeio pela galeria vai de esculturas imponentes fundidas em bronze a maquetes de gesso para espaços monumentais, ao lado de amálgamas de objetos encontrados na praia reunidos com seus filhos, Bea, 16, e Abe, 13. figuras traz um novo olhar sobre a natureza e seu poder de cura em suas pinturas recentes”, diz Ottilie Windsor, artista de ligação de Houseago na Gagosian.

Foi uma conversa telefônica com Cave que provou ser o catalisador para o novo corpo de pinturas de Houseago – que flutua dramaticamente entre terríveis visões de pesadelo para cenas mais “cósmicas”. “Quando Thomas disse, ‘Eu não consigo nem pegar uma porra de um pincel’, ou qualquer outra coisa, nós fizemos um pequeno acordo”, diz o cantor australiano que vive no Reino Unido. “Eu disse: ‘Tudo bem, estou tendo dificuldade em escrever músicas. Vou escrever uma música para você se você me pintar um quadro. E isso meio que acendeu algo para mim.” Quando Cave enviou por e-mail o poema que se tornaria a música “White Elephant”, Houseago foi estimulado a entrar em ação. “Naquela época eu não fazia arte. Eu estava feito. Eu fazia corridas e trilhas em Malibu, tentando me conectar com a natureza”, lembra. “Havia uma flor que eu via e pensei: ‘Vou pintar isso para Nick’”.

Thomas Houseago, Nick Cave e Brad Pitt no espaço expositivo da WE no Sara Hildén Art Museum, Tampere. Atrás deles está Untitled (Abstract IV) de Houseago, 2015 © Maureen M Evans. Estúdio Cortesia Houseago

A troca criativa foi um dos vários fatores que levaram Cave à cerâmica, e em Tampere ele mostra uma série de 17 estatuetas, produzidas em um estúdio no sul de Londres com a ajuda do escultor britânico Corin Johnson, e inspiradas nos ornamentos vitorianos de Staffordshire flatback que ele coleciona. “Eu tenho centenas de coisas”, diz Cave sobre as formas um tanto kitsch que ele subverteu em The Devil – A Life. O que começou como um desejo de criar uma única pequena figura do diabo como veículo para um intenso esmalte vermelho “tornou-se uma jornada em direção a algum tipo de absolvição de uma série de eventos devastadores. Isso [as obras de cerâmica] – e de fato, todas as músicas que escrevo – são sobre a ideia de perdão, a ideia de que há uma virtude moral na beleza. É uma espécie de equilíbrio de nossos pecados.” Como sua música, o resultado é bonito e comovente. 

O trabalho de Pitt parece mais difícil de colocar. Seu amor de confinamento pela cerâmica foi amplamente divulgado – e um conjunto de seus castiçais de porcelana artesanais são mostrados em meio às esculturas de Houseago. Suas obras escultóricas de maior escala são mais perturbadoras: um painel de gesso em relevo impresso com seu próprio corpo para representar um tiroteio fílmico (mas também, ele sugere, “um conflito interno”) e uma série de estruturas de silicone em forma de casa simplificadas que têm cada foi baleado – intitulado Self-inflicted Gunshot Wound to the House– traçar paralelos sobre a destruição de sua vida doméstica que são muito fáceis de ver. “É tudo uma questão de autorreflexão”, explica ele. “Eu estava olhando para minha própria vida e realmente me concentrando em possuir minhas próprias coisas: onde fui cúmplice de falhas em meus relacionamentos, onde errei. Para mim, nasceu da propriedade do que eu chamo de um inventário radical do eu, sendo realmente brutalmente honesto comigo e levando em consideração aqueles que eu possa ter machucado.” 

Slave To Our Vices, 2022, de Brad Pitt © Cortesia Studio BeeP, Los Angeles
Detalhe de Mirando em você Eu me vi, mas era tarde demais desta vez, 2022, de Brad Pitt © Maureen M Evans. Cortesia Studio BeP, Los Angeles

Comendo um sanduíche mais tarde no café, Pitt parece aliviado por ter divulgado isso. Ele é surpreendentemente aberto para um homem cujo cada movimento – desde seu anel de sinete até sua sobriedade e nova linha de cuidados com a pele – está sujeito a escrutínio. “É cansativo ser qualquer coisa, menos quem você é”, diz ele. “Você tem que entender, pelo menos onde eu cresci, nós somos mais o personagem Clint Eastwood; você guarda tudo dentro de você, você é capaz, você pode lidar com qualquer coisa, você não mostra fraqueza. Eu vejo isso no meu pai e nas gerações mais velhas de atores e, cara, é exaustivo. À medida que envelheço, encontro tanto conforto em amizades onde você pode ser [completamente você mesmo], e quero que isso se estenda no mundo exterior. O que as pessoas acham disso: Estou bem. Eu me sinto seguro aqui porque há um foco em nossas lutas como seres humanos, porque é cheio de perigos. E alegria também.” 

Como falar abertamente sobre luto e trauma, mas não ser definido por eles, é assunto de muita discussão. “Descobri que tenho que andar com a dor que sinto e tenho que andar com a alegria, a beleza”, diz Pitt. 

Cave acrescenta: “Falando sobre coisas como trauma, sou muito mais cauteloso [do que Houseago]. É muito mais controlado.” Ele se lembra de uma época em que ele e Houseago estavam modelando algumas roupas para a marca de moda de Susie Cave, The Vampire’s Wife . “Estávamos todos sentados lá tomando xampu e, 30 segundos depois de conversar com [o cabeleireiro], Thomas revelou os eventos mais incompreensíveis e traumáticos”, diz Cave. Mesmo assim, nem o novo livro de Cave, Faith, Hope and Carnage , nem seu blog de perguntas e respostas, The Red Hand Files, evite assuntos difíceis. Ambos oferecem uma exploração surpreendente de suas dores. “Essas coisas foram tiradas de mim por pessoas que se identificam com a minha situação; você tem que responder a isso com o coração cheio. Há um certo período de perda em que você fica aterrorizado e tudo desmorona; sua vida é destruída. E eu sei que há um caminho através disso. Eu sei porque eu já passei por isso e parece apenas um dever falar com as pessoas em algum nível do outro lado do abismo.”

“Nossa miséria mútua se tornou cômica”, diz Pitt sobre seu encontro com Houseago seis anos atrás © Maureen M Evans Quanto revelar é algo que Houseago está trabalhando atualmente. “Profissionalmente, não preciso falar sobre minha recuperação repetidamente; fica claro no trabalho”, diz. “Mas, pessoalmente, quero ter certeza de que todos que olham para o meu trabalho e veem esse programa saibam que estou aberto a falar sobre traumas, sobre soluções, de uma maneira muito popular. Se houver necessidade de eu vir e falar em algum lugar sobre como você sobrevive a um trauma pré-verbal, estou lá. 

Tanto Pitt quanto Cave expressam sua intenção de continuar suas jornadas como artistas visuais. Cave já está fazendo uma nova série de cerâmicas. Para Pitt, a prática parece centrada na arte como terapia: “Sinto que há um chamado maior, uma conexão novamente. Sendo tátil, há alguma liberação nisso…” Houseago, enquanto isso, está terminando animadamente uma comissão ao ar livre em grande escala em Los Angeles, e também criou uma série de novas esculturas para o Centro Pompidou-Metz, que será exibida ao lado de pinturas. a partir de 22 de outubro. Todos incorporam seu novo espírito de esperança. “Está completamente claro para mim que minha missão é cantar a beleza do mundo”, conclui. 

Thomas Houseago – WE With Brad Pitt & Nick Cave, está em exibição no Sara Hildén Art Museum, até 15 de janeiro de 2023. Victoria Woodcock e Maureen M Evans viajaram como convidados da Cidade de Tampere (tampere.fi)

Brasileira Patrícia Cançado vence concurso internacional de fotografia feita com celular

A fotógrafa amadora Patrícia Cançado ficou com o primeiro lugar na categoria Pessoas
Daniel Silveira, O Estado de S.Paulo

IPP Awards
Imagem de Patrícia Cançado ficou em primeiro lugar na categoria Pessoas. Foto: Patrícia Cançado/IPP Awards

A fotógrafa amadora Patrícia Cançado foi uma das vencedoras do iPhone Photography Awards. O IPP Awards é uma premiação que avalia imagens feitas usando um iPhone e seleciona as melhores em categorias como Melhor FotoFotógrafo do anoAbstratoAnimaisArquitetura, entre outras. Patrícia ficou em primeiro lugar na categoria Pessoas. “É o que eu gosto mesmo, de gente”, afirma.

Ela conta que a imagem surgiu por acaso durante umas férias que passou na Bahia. “Vi duas mulheres andando com o mesmo maiô, uma com um cabelo vermelho, lindas e fui pedir para fotografá-las”, explica. Ao chegar lá, ela perguntou se podia fazer um registro das duas, que disseram que tinham mais outras duas mulheres da mesma família com elas, também usando o mesmo modelo de roupa de banho. Ela, então, resolveu registrar as quatro, que são gaúchas e estavam também em férias na Bahia. 

“Achei super poderoso quatro mulheres viajando sozinha, na Praia do Espelho, com uma relação legal com seus corpos, se achando bonitas”, diz Patrícia. “A história dessas mulheres com seus corpos foi o que me chamou atenção. Eu não queria um tom de piada, de olhar aquilo como exótico, queria trazer delicadeza”, continua a fotógrafa, que também é jornalista.

Ela conta que, depois de publicar em sua rede social, recebeu mensagens de pessoas elogiando o registro e outros incentivando que ela inscrevesse a imagem em um concurso. “Muitas mulheres me escreveram dizendo como aquela foto tinha sido forte para elas”, lembra. 

A mesma imagem foi selecionada para participar do Summer Open 2022, um concurso fotográfico da revista Lens Culture. Uma curadoria vai escolher as 20 melhores para uma exposição em Londres. A foto de Patrícia está concorrendo. 

Centenário de Pasolini é celebrado com retrospectiva de filmes e mostra de fotos do fotógrafo Paolo di Paolo no CCBB

Exposição traz 80 imagens do fotógrafo Paolo di Paolo, que acompanhou o cineasta e escritor italiano numa viagem pelo litoral do país em 1956
Por Nelson Gobbi

‘La prima volta al mare’, foto de Paolo di Paolo feita em Rimini, em 1959, em viagem com Pasolini — Foto: Archivio Fotografico Paolo Di Paolo

Em 1959, a Itália vivia um momento de transição, tentando superar os traumas da Segunda Guerra Mundial e, ao mesmo tempo, colhendo os frutos do milagre econômico que duraria até 1963, após anos de privações. Para registrar aquele que prometia ser o primeiro grande verão do pós-guerra, a revista Successo incumbiu o fotógrafo Paolo Di Paolo e o cineasta, escritor e dramaturgo Pier Paolo Pasolini de cruzarem a costa do país de carro, do Mar Tirreno ao Adriático, durante três meses.

As fotos da viagem são a base da exposição “Por uma longa estrada de areia”, inaugurada ontem no CCBB do Rio, após passar por Lisboa e Copenhague, com 80 registros de Di Paolo. Produzida pelo Instituto Italiano de Cultura do Rio em homenagem ao centenário de Pasolini (1922-1975), a exposição será acompanhada de uma mostra retrospectiva com filmes como “Desajuste social” (1961), “Mamma Roma” (1962) e “Rei Édipo” (1967). Também com exibições no próprio instituto, o ciclo “O cinema segundo Pasolini” vai promover a estreia nacional de “O jovem corsário” (2022), de Emilio Marrese, que reconstitui a juventude do cineasta em Bolonha. Outra mostra em parceria com a instituição, “Caro Pier Paolo” será realizada na Cinemateca do MAM, a partir do dia 29.

Diretora do Instituto Italiano de Cultura do Rio e curadora da mostra cinematográfica, Livia Raponi acredita que, em seu centenário, Pasolini seja mais bem compreendido como um artista visionário e multifacetado.

— Ele foi assassinado há quase 50 anos e ainda assim se mantém relevante e inspirador, de forma que outros intelectuais italianos não conseguiram — destaca Livia. — Ele não tinha medo de se despir por inteiro, de tratar de temas ainda incômodos, como a sexualidade ou questões sociais. E fazia isso transitando por diferentes meios, de forma muito contemporânea.

Além da homenagem a Pasolini, a mostra “Por uma longa estrada de areia” joga luz sobre a produção de Paolo Di Paolo, que ficou esquecida durante décadas. Após a mudança do mercado editorial italiano, com o fim de publicações como a revista ilustrada Il Mondo e o predomínio das imagens em cores, o fotógrafo abandonou a carreira em 1968 e virou historiador militar.

Sua trajetória foi descoberta por acaso, por sua filha, Silvia, há 20 anos. Procurando um par de esquis, ela encontrou em casa um arquivo com fotos e cerca de 250 mil negativos. Só quando perguntou aos pais de quem eram as imagens que soube da viagem com Pasolini e que ele havia fotografado algumas das maiores estrelas de seu tempo, como Marcello Mastroianni e Anna Magnani.

Após a descoberta, Silvia criou a Fundação Archivio Di Paolo e passou a fazer a curadoria de exposições com a obra do pai, como a que chega ao CCBB.

— Após parar de fotografar e se casar com minha mãe, que foi sua secretária, meu pai mudou-se de Roma para o interior e nunca mais falou no assunto. Quando encontrei as fotos, ele disse apenas que eram “coisas dele”, com naturalidade, como se não fossem parte da história italiana — conta Silvia Di Paolo, que veio ao Rio para a abertura da mostra. — O arquivo é imenso, até hoje não sei ao certo quantas fotografias são no total da viagem com Pasolini.

https://52aa3102331b9c5cee04cab131b283c8.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Di Paolo vive atualmente em Roma, aos 97 anos. No Festival de Roma do ano passado, foi lançado o documentário “The treasure of his youth: The photographs of Paolo Di Paolo”, do fotógrafo de moda e cineasta americano Bruce Weber. O longa teve origem em 2017, quando Weber comprou registros do italiano num antiquário e quis saber quem era aquele fotógrafo desconhecido, ficando obcecado com a história do acervo escondido por mais de 50 anos.

— Ele se diverte acompanhando as menções a seu nome no Google, e brinca dizendo que é a Greta Garbo da fotografia, que também preferiu deixar a carreira no auge — diz Silvia, comentando as diferentes visões do pai e de Pasolini durante a viagem. — Meu pai queria parar e fotografar tudo, e Pasolini seguia mais calado, reflexivo. Ele estava buscando os seus fantasmas literários naquelas praias, enquanto meu pai queria registrar aquele desejo de mudança das pessoas.

Onde: CCBB. Rua Primeiro de Março 66, Centro (3808-2020). Quando: Seg e de qua a sab, das 9h às 21h; dom, das 9h às 20h. Até 2/8. Retrospectiva de 2 a 10/7, às 18h. Quanto: Grátis, com ingressos na bilheteria do CCBB ou pelo site Eventim. Classificação: Livre.