A Nova York dos ricos e a dos esnobes na série ‘The Gilded Age’

PATRÍCIA KOGUT

Cena de ‘The gilded age’ (Foto: Divulgação/HBO)

No fim do século XIX, os Estados Unidos viveram o que se chamou de Gilded Age (anos dourados). Grandes fortunas estavam em construção. E áreas até hoje consideradas elegantes em Nova York emergiam como endereços da elite. É nesse ambiente que se desenrola “The Gilded Age”série que estreou na HBO Max. Trata-se de mais uma criação de Julian Fellowes, mesmo autor de “Downton Abbey”.

O enredo começa em 1882, quando a mocinha, Marian Brook (Louisa Jacobson), fica órfã. Ao contrário do que imaginava, seu pai não deixou qualquer herança. Ela se vê sozinha e perde até a casa onde eles moravam, numa zona rural da Pensilvânia. Sua única opção é se mudar para Nova York e se abrigar com duas tias ricas: Agnes van Rhijn (Christine Baranski, de “The good wife”) é viúva e domina a caçula, Ada Brook (Cynthia Nixon, a Miranda de “Sex and the city”), que nunca se casou, não tem renda e vive de favor com a irmã.

Depois de uma viagem acidentada, Marian desembarca na casa cheia de regras de Agnes. Traz uma amiga que conheceu no caminho, a aspirante a escritora Peggy Scott (Denée Benton). A jovem negra acaba contratada como secretária da dona da casa.

Como acontecia em “Downton Abbey”, a trama se detém na fragmentação social. De novo, o “andar de cima”, onde vivem os patrões, e o subsolo em que ficam os empregados são cenários concretos, e não simples metáforas. O enredo corre em veias de todos os calibres. Há os conflitos que envolvem os ricos, a Quinta Avenida ainda em construção, os salões elegantes e os primeiros prédios imensos. E aquilo que se desenrola na vida privada dos criados, as futricas domésticas e as historinhas de fôlego mais curto. Peggy transita bem nos dois universos.

Marian é uma protagonista fraca e sem brilho, embora não seja boba. Ela orbita em torno das tias e sua vida amorosa, pelo menos até aqui (há três episódios disponíveis), não empolga. O interesse romântico, aliás, não é destaque em “The Gilded Age”. A confecção de um tecido social cheio de sobrenomes tradicionais e outros nem tanto é o que puxa a trama.

Apesar de nunca ter passado por uma monarquia, uma fração da sociedade americana emulava os comportamentos da aristocracia europeia. Os quatrocentões assumiam a pose de condes, marqueses e princesas. Por sua vez, os novos-ricos penavam para furar o bloqueio social imposto pelos donos desses narizes em pé. Esse antagonismo se aprofunda quando uma família se muda para um palacete do outro lado da rua. São os Russel, Bertha (Carrie Coon) e George (Morgan Spector). Ele é um magnata que constrói ferrovias e usa métodos heterodoxos para se afirmar nos negócios: intimida vereadores e esmaga rivais. É malvisto e temido no mercado. Já ela, alpinista, está determinada a conquistar um lugar entre os mais esnobes.

A série não tem nem de longe o encanto de “Downton Abbey”. Nem precisaria se não se valesse da mesma estrutura narrativa. Opõe pobres e ricos, dinheiro “novo” e dinheiro “velho” e por aí vai. As comparações ficam inevitáveis. Não espere grande sutileza aqui. O roteiro é superficial e os diálogos, de vez em quando, derivam para o chavão constrangedor. Outro ponto que incomoda — mas que vai sendo absorvido e naturalizado pelo espectador — é a impressão de estar vendo uma Nova York cenográfica. Esse aspecto de simulacro falso combina com todo o resto. Não vale portanto conferir “The Gilded Age” esperando alma e coração. O segredo está em saber apreciar o “enfeite” e se divertir com a frivolidade. Sem dizer que o elenco no geral é melhor do que o roteiro. Noves fora, o conjunto funciona, e a série merece a sua atenção.

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